15 de julho de 2019

MORRE O ARTISTA JOSÉ HIGINO PEREA



Faleceu na tarde deste domingo 14 de julho de 2019 - em Dois Irmãos/RS - Brasil , o artista plástico José Higino Perea Pascual, "O Peruano" - aos 80 anos.

O artista plástico latino-americano era um ícone no mundo da pintura e tem obras espalhadas por vários países. Com uma coleção superior a 50 prêmios, o "Peruano", como é mais conhecido, em 2017 recebeu uma incrível missão: pintar alguns quadros a pedido do Papa Francisco. Eles se conheceram na Argentina e eram amigos há muitos anos.

Perea foi inserido no mundo das artes sacras bem jovem. Começou a ‘pintar’ no exterior com apenas 9 anos de idade e lembra que era enviado para representar a arte de descendência Inca em diversos países. Recebeu muito apoio representando o seu país.

Peruano morava no Brasil há mais de 40 anos e trouxe de sua terra natal a técnica de pintura da cidade de Cusco. Em seus quadros retratava, na maioria das vezes, os Andes peruanos e a população cusquenha. Ele nasceu em Lima, no Peru, e aos 17 anos, começou a trabalhar com artesanato em cobre, madeira e couro. Aprimorou seus estudos no desenho, pintura, escultura, tapeçaria e pirogravura, arremessando-se profissionalmente no design de móveis, quando teve a oportunidade de aperfeiçoar-se em Milão. Para ele, o choque cultural sentido através do contato com escolas clássicas europeias, mais conservadoras, foi fundamental para a criação dos estilos próprios, baseados nas formas livres da arte cusquenha. Perea era conhecido pela mistura de materiais que compõem suas obras. Ele utilizava resina especial, pó de ouro, de diamante e o carvão. A mistura de materiais faz com que suas pinturas se tornem únicas e objetos de desejo. Seus quadros, evocando na maioria os Andes e a população cusquenha, estão espalhados pelas melhores galerias e museus do mundo, como o do Palácio Royal de Holanda, Palácio Municipal de Milão, Museu de Arte de Estocolmo, Prefeitura de Ichinomiya (Japão), Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro e coleções particulares.

Não há dúvida que o mundo da pintura ficou mais pobre.
Minha homenagem ao Grande artista Perea!

Mais obras e textos nesse blog:

(Parte do texto publicado pelo 'O Diário' (cidade de Dois Irmãos - RS/Brasil)










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15 de junho de 2019

FRIDA KAHLO 1907 / 1954


The Little Deer - 1951
  

 - por Tais Luso 


Pintora mexicana e de muita relevância para as artes e principalmente para seu país. De temperamento e atitudes independentes para sua época, possuía uma saúde frágil desde sua infância, se agravando após um acidente de carro, na cidade do México, quando saia da escola.

Sua obra é muito interessante, principalmente seus auto-retratos onde podemos ver seus traços fortes, suas sobrancelhas que se juntam acima do nariz. Podemos ver que a artista domina completamente a arte do desenho.

De atitudes muito de vanguarda para sua época, Frida só agia de acordo com suas convicções. Quando em 1913 contraiu poliomielite, aos 6 anos,  ficou com uma lesão no seu pé direito. A partir disso ela começou a usar calças e depois, longas e exóticas saias, que vieram a ser uma de suas marcas.

De 1922 a 1925 Frida começou a interessar-se muito por pintura e a frequentar a Escola Nacional Preparatória do Distrito Federal do México onde assistia as aulas de desenho. Em 1925, aos 18 anos aprendeu a técnica da gravura com Fernando Fernandez. Porém sofreu um grave acidente num ônibus no qual viajava. Este chocou-se com um trem, levando a artista a um longo sofrimento. 


Em 1928 quando Frida Kahlo entrou no Partido Comunista Mexicano, conheceu Diego Rivera, pintor muralista com quem se casaria no ano seguinte. Entre 1930 e 1933 ficou muito em Nova Iorque e Detroit com o marido.

Frida retratava a sua biografia nas obras.  Durante toda a sua vida, o amor e a dor – física e emocional – estiveram em suas obras tanto na vida pessoal quanto na profissional. O acidente de ônibus que lhe causou lesões no útero e na coluna, 30 operações ao longo de sua vida, mais seus abortos, e as inúmeras traições de Diego Rivera,  não poderiam estar ausentes das telas de Frida.

Submeteu-se a várias cirurgias ficando muito tempo acamada. Durante a sua longa convalescênça começou a pintar, com uma caixa de tintas que pertenciam ao seu pai, e com um cavalete adaptado à cama.

André Breton, poeta francês e teórico do surrealismo, em 1938 qualifica a obra de Frida como surrealista, para uma exposição na galeria Julien Levy de Nova Iorque. Após esta ocasião disse ela: 

Pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade.
Sua realidade era dolorosa apesar de ter tido inúmeros relacionamentos amorosos inclusive com o líder revolucionário russo Leon Trótski. Sua ardente relação com o marido, Diego Rivera, muralista mexicano, era turbulenta (ambos tinham casos extraconjugais) e foi pontuada por períodos de separação. Após o assassinato de Trótski, eles se casaram meses depois.

Portanto, sua vida afetiva sempre foi tumultuada, jamais encontrou a paz. Em seu atestado de óbito consta que veio a falecer de embolia pulmonar, não se descartando, porém, ter sido envenenada por alguma das amantes de seu marido.  Isso, segundo a biópsia.

Das 143 pinturas de Frida Kahlo, mais de 50 são autorretratos e até mesmo seus outros trabalhos são estritamente autobiográficos.

Nasceu em Coyoacán. Seu pai era fotógrafo alemão e sua mãe uma mestiça. Frida teve sua perna direita amputada em 1953, após exposições no México, Estados Unidos e Europa. Morreu de câncer em sua cidade natal.



Auto-retrato                                                Árvore da Esperança
As duas Fridas -  1939
Abraço Amoroso no  Universo  - 1949
Auto-retrato entre fronteira do México e Estados Unidos - 1937
Dois nus numa floresta - 1939

Frida e Diego Rivera



Referências: Tudo sobre Arte - Sextante / RJ 2011
História da Arte - Graça Proença


Interior do Museu e mais fotos de Frida Kahlo
Clique aqui: BLOG DA MARI-PI-R



21 de maio de 2019

MICHELANGELO MERESI DA CARAVAGGIO


A cabeça de  Medusa / 1597  (Galeria Uffizi  - Florença)



    - por Tais Luso 

Michelangelo Merisi da Caravaggio nasceu em 1571, Caravaggio, Itália. Não era propriamente genial como pessoa; era um jovem de temperamento violento, arruaceiro, mente instável, de muitas bebedeiras, dívidas, amigos duvidosos, várias prisões, uma acusação de assassinato no jogo da péla. Era um frequentador do submundo.

Caravaggio foi o mais original e influente pintor italiano do século XVII. Recrutava seus modelos nas ruas e os pintava à noite, entre luzes e sombras. Eram telas com fortes contrastes, jovens com caras viciadas, bêbados, gente de toda a espécie se entrelaçando em suas telas.

Caravaggio era filho de um arquiteto, que morreu ainda quando o pintor era criança. Sua mãe morreu quando ele era ainda jovem. No início de sua carreira, ao viajar para Roma, Veneza, Roma, Cremona e Milão Caravaggio já era um órfão individado.

Seus primeiros trabalhos foram marcados por retratos inigmáticos. Seu autoretrato como Baco (1593/1594), também exibe um extraordinário talento para natureza morta.


Ressurreição de Lázaro (restaurada)

Pequeno Baco doente

Com muitos trabalhos em Roma, Caravaggio levou para as telas a vulgaridade humana, exibida nas suas figuras de vestes surradas e sujas e nos seus rostos maltratados.

Em seu quadro, A Morte da Virgem Maria pintou imagens sem gloria e sem o esperado explendor causando enorme desconforto e rejeição da igreja. Seria uma encomenda destinada a Igreja de Santa Maria de La Scalla. Cogitou-se que a modelo requisitada para a obra teria sido uma cortesã de vestido vermelho e que, pelo seu ventre inchado, já estaria morta.

Durante muito tempo foi considerado indigno para participar de exposições, igrejas e salões da nobreza. Era chamado pelos seus contemporâneos de anticristo da pintura, de artista pé sujo. Requisitava as prostitutas e mendigos para seus modelos de santos; os apóstolos em trajes velhos e sujos, ou ainda representar os momentos da história cristã como fato simples do cotidiano foram alguns dos pecados de Caravaggio. Assim mesmo sua obra foi tocada pela anormalidade do gênio, criativa e desesperada.

Caravaggio ainda trabalhou nas obras  O Sepultamento, A Virgem de Loreto, A Virgem dos Palafreneiros e A Morte da Virgem. As duas últimas recusadas, por incorreção teológica.

Ao romper com as representações sacras, deixa o caráter celestial, de personagens sagrados e volta a retratar o cotidiano mundano, com fundos escuros, valendo-se de sua técnica claro-escuro na qual foi mestre.

Duas fases se distinguem em sua carreira: um primeiro período experimental  1592 / 1599 e um período de maturidade (1599 / 1606). Suas primeiras obras foram pequenas figurações de temas não dramáticos, como naturezas-mortas, figuras de meio corpo como O rapaz com uma cesta de frutas, Florença, O jovem Baco. Mais tarde suas figuras tornaram-se mais articuladas, com cores mais ricas, com sombras acentuadas, como na Ceia de Emaús.

O segundo período, o da maturidade, Caravaggio iniciou com uma encomenda para a Capela de Contarelli. Na obra São Mateus e o Anjo, desenvolveu  uma ação dramática, com maestria no uso das tintas que com muito esforço foram conseguidas - vista num estudo através de raios-X. Porém, foi rejeitada por ser considerada indecorosa, mas comprada mais tarde pelo Marquês Vincenzo Giustiniani, um dos mais importantes mecenas de Roma, que também pagou pelo retábulo substituto.

No período em que fugiu de Roma - em 1606 -, passando os 4 últimos anos de sua vida perambulando de Nápoles para Malta e Sicília, continuou a pintar obras religiosas, mas com um novo estilo, buscando apenas o essencial: poucas cores, tinta aplicada em finas camadas e o drama das obras anteriores, substituídas por um silêncio contemplativo.

Sua atividade não foi longa, mas foi intensa. Caravaggio apareceu numa época em que o realismo não estava tão em moda, em que as figuras eram retratadas de acordo com as convenções e os costumes, mais romantismo e graciosidade do que as exigências da verdade, fazendo com que o belo perdesse seu valor.

O interesse por Caravaggio declinou no séc XVIII, mas voltou à baila na metade do séc XIX onde todos viam em sua pintura uma rejeição à beleza e a busca pelo horror, à feiura e ao pecado.

Teve uma morte prematura aos 39 anos e morreu tão miseravelmente quanto viveu, colocado numa cama, sem ajuda , sem amigos. Morreu de malária, em 1610, em Porto Ercóle, Itália.


CARAVAGGISTI

Era a denominação dada a pintores do início do séc XVII que imitaram o estilo de Caravaggio. O uso do claro e escuro para conseguirem mais dramaticidade e realismo. Estes exerceram muita influência em Roma no princípio do séc XVII. O Caravaggisti foi um fenômeno de grande importância, o mundo talvez não tivesse um Rembrandt, um Delacroix, um Manet, Rubens ou Velazquez se não fosse a influência de Caravaggio.

OBRAS PRIMAS:

Baco / Jovem com um Cesto de Frutas / Menino mordido por um Lagarto / Repouso na fuga para o Egito / A cabeça da Medusa / A Morte da Virgem / A Ceia de Emaús / O martírio de São Mateus / O Sepultamento / A Decapitação de São João Batista / A Ressurreição de Lázaro.

Ceia em Emaús        - clique foto -
Cesta de Frutas

Crucificação de São Pedro
O enterro de Cristo
A morte da Virgem
Baco / 1593 - 94
Os trapaceiros / 1594

São Francisco
Fontes:
Grandes Artistas - ed. Sextante
D.Oxford de Arte
501 Grandes Artistas 


30 de abril de 2019

CATEDRAL DE NOTRE-DAME - VÍDEO COMPLETO


Agradeço a querida  amiga de Portugal  Maria Caiano Azevedo (Mariazita)  que, a meu pedido,  teve o carinho  de passar para vídeo essa bela matéria (com os devidos créditos no final)  sobre  a Catedral de  Notre-Dame, um dos  principais símbolos  de Paris e da Igreja Católica. Um beijo,  amiga.


Blog de Mariazita: A Casa da Mariquinhas

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21 de abril de 2019

HISTÓRIA DE NOTRE - DAME / PARIS


Veja o vídeo até o final - interior da Catedral

Porta de entrada








4 de abril de 2019

JACEK YERK E SUA OBRA SURREALISTA

Outono - Jacek Yerka

Yerka nasceu em Torun (cidade no norte da Polônia) em 1952. Trabalha e reside, com sua família - esposa e 4 filhos - em um enclave rural de sua terra natal. Estudou arte e ilustrações antes de se tornar um artista em tempo integral, em 1980.

Yerka resistiu às pressões constantes de seus instrutores para adotar as técnicas com menos detalhes e rumar para a arte contemporânea. Porém sentiu que perderia o fascínio pela pintura, pela criação. O que aconteceu foi a constatação de seus professores em acreditar na arte maravilhosa de Yerka proveniente de seus sonhos de infância, de sua imaginação.

Sua família era de artistas. Seu pai era responsável pelas ideias, enquanto sua mãe elaborava com perfeição tais ideias. E foi nesse meio que Yerka cresceu.

Foi uma criança muito reativa, com problemas de adaptação com seus colegas de colégio, não participava de jogos ao ar livre, gostava de desenhar, trazer à tona seus sentimentos, a sua realidade íntima, seus sonhos. Era uma fuga da realidade..

Pensava em estudar astronomia ou medicina. Em 1980 já trabalhava para várias galerias de arte em Varsóvia, como também aceitando encomendas, dedicando-se quase que exclusivamente à pintura.

Em 1995, o artista foi premiado com o renomado World Fantasy Award como o melhor artista. Suas obras estão presentes na Polônia, Alemanha, França, EUA, entre outros tantos países. Tornou-se conhecido no mundo inteiro com seu surrealismo fantástico.

Low cost airlines

Espuma - Jacek Yerka

Tectonic - Jacek Yerka

Barragem Bíblia
A cidade está pousando
Cloudbreaker

Movimento Surrealista - clique aqui.


2 de março de 2019

FERNANDO BOTERO E AS 'DORES DA COLÔMBIA'

El Desfile / 2000
- Tais Luso de Carvalho



É impactante a exposição de Fernando Botero 'As Dores da Colômbia' que visitei em Porto Alegre no Centro Cultural Erico Verissimo. 
Fernando Botero (nasceu em Medellín, 19 de abril de 1932), é um dos artistas em atividade  mais prestigiados no mundo. Botero não é apenas o criador dos famosos, inconfundíveis e simpáticos gordinhos, representados nas suas pinturas, desenhos e esculturas; é mais; é um artista que se propôs a doar várias obras ao Museu Nacional da Colômbia para registrar as dores de seu país, dores que ninguém fica indiferente; a barbárie, a crueldade premeditada, a dor profunda do ser humano quando acossado e oprimido, quando é arrancada sua liberdade e seus direitos, sejam por guerrilhas, narcotráfico, manobras políticas ou pelos grupos paramilitares acontecidos na década de 1990.

'Não vou fazer negócio com a dor da Colômbia', declarou Botero ao anunciar, no ano de 2000, a sua decisão de doar esta coleção de obras ao Museu, Instituição que há muito tem sido objeto de sua generosidade. Com essa série de obras o artista não tem a pretensão de pôr fim ao conflito. O olhar do artista é compassivo e solidário, não almeja a mobilização, porque não acredita nela. Quer apenas chamar a atenção do mundo e 'dar seu testemunho' - como afirma.

'O material de sua triste leitura são massacres reais noticiados em todo o mundo. Aprisionamentos, corpos abatidos após o combate, lágrimas e sangue. O silêncio domina e o pesar é resignado. As cenas são como flagrantes individuais escolhidos em meio a uma tragédia que está por toda a parte e cuja extensão não é possível alcançar. Sobre suas vítimas Botero lança suas vibrantes cores, criando um contraditório e dramático material'. (Centro Cultural CEEE Erico Verissimo).

'Sou contra a arte como arma de combate. Mas em vista do drama que atinge a Colômbia senti a obrigação de deixar um registro sobre um momento irracional de nossa história'. (Botero)

Botero não tem a preocupação em pintar coisas especiais, mas de transformar a realidade em arte. E assim é. Estas obras expostas no Centro Cultural Erico Verissimo – que fica até 8 de março de 2012 -, mostram sob vários ângulos uma história impossível de ocultar e de esquecer. O mesmo se viu em obras de Goya (Desastres da Guerra) e Picasso (Guernica), o relato, para não esquecer do horror.

Apesar de Botero ter deixado sua terra natal há mais de 40 anos, mostra-se conectado ao seu país pintando não só seu lado agradável, mas também o que foi o lado terrível e violento. Cada quadro marca uma história, um lado peculiar e intimidador da violência que deságua na dor mais profunda do ser humano: perdas de filhos massacrados diante da mãe, esquartejamentos, fuzilamentos diante da família, atos no mais alto grau de violência e que a impiedade pode alcançar.

Esta exposição, que seguirá à outras cidades e países, é composta de 25 pinturas, 36 desenhos e 6 aquarelas. Todas as obras foram doadas em 2004 e 2005 e já percorreu cidades europeias e latino-americanas.

Esta exposição ficará em Porto Alegre até o dia 8 de março de 2012. Vale uma visita: além de vermos características plásticas próprias da obra de Botero, servirá para uma reflexão. E poder sentir, quem sabe, os horrores; a que ponto chegamos e o que somos capazes de fazer à nossa própria espécie.


Estes quadros são uma forma de repudiar a violência. (Botero)

Madre e hijo / 2000

Viva la Muerte / 2001

El Cazador / 1999

Matanza de los inocentes / 1999

El Masacre / 2000

Una Madre / 2001



Masacre en Colombia / 2000

Motosierra / 2004

Botero e as 'Dores da Colômbia'


Taís / painel de entrada
Mais sobre Botero:   aqui, neste blog.


Fontes:
Algumas fotos e material  me foram enviadas, gentilmente, pelo  jornalista Paulo Camargo do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. Meus agradecimentos.
Fotos: Reprodução / divulgação do Museu Nacional da Colômbia
Patrocínios:
Grupo Bradesco Seguros
Aori Produções Culturais
Museu Nacional da Colômbia



12 de fevereiro de 2019

ARTE NÃO SE LIMITA - Érico Santos

- Bananais -

     Após ter lido um dos livros escritos pelo artista Érico Santos - Arte: emoção e diálogo, fisguei um dos seus textos  que achei de muita relevância.  Um texto em que o artista fala com muita propriedade, pois sua palavra é digna de crédito, pelo conceituado artista que é, atuante no mercado de Arte desde 1974, com estúdios em Porto Alegre e Milão/Itália.
    Érico realizou inúmeras exposições individuais e bem mais de 200 exposições coletivas no Brasil, México, Estados Unidos, Espanha, França, Inglaterra e Itália, onde obteve diversos prêmios e comendas. Começou nas artes como desenhista publicitário, ilustrador e cartunista. Também formado em Direito, profissão que atuou por vários anos. Transcrevo na íntegra, seu artigo:

ARTE DEMAIS    ( por Érico Santos)

Certo domingo, li num jornal uma matéria de um especialista em decoração de interiores que versava sobre o que, atualmente, é chique ou em desuso na arrumação das paredes da casa. Estarreceu-me a afirmação de que não se deve colocar muitos quadros: numa parede grande, apenas um é suficiente para dar aquele toque de bom gosto.

Vê-se assim, como a arte é vista de formas diferentes conforme as diversas concepções de cada pessoa. No caso, esse decorador, tão imiscuído na finalidade da sua tarefa – tornar ambientes agradáveis – deturpou totalmente o propósito das obras de arte, reciclando-as para apenas quadros. A arte deixa de existir em si para se transmutar em elemento de um conjunto. Retirou-lhe o espírito para que se tornasse um corpo num ambiente. Lembrou-me, aliás, aqueles que compram livros bem encadernados, a metro, para enfeitar a estante nova.

Estarreceu-me aquele artigo, não pela ignorância artística daquele profissional, porque a falta dela é ainda, um privilégio de poucos, mas sobretudo pela insensibilidade que, aos seres de alma, não se justifica. Sua afirmativa foi grotesca porque para aquelas pessoas pouco dotadas de conhecimento artístico e, pior, sensibilidade, é um estímulo a se desfazerem de seus quadros para esvaziar as paredes. Não seria o mercado de arte o grande derrotado, mas o espírito. Os bem-dotados de alma continuarão a comprar obras de arte, porque as veem para o espírito, e não para as paredes. E se decoração é tornar ambientes agradáveis, com certeza para essas pessoas, paredes abarrotadas de quadros só lhes farão bem. Aos demais, recomendo que troquem a cada ano aquele único quadro, porque decorar só por decorar cansa, além de ter que se subjugar a modismos.

Os bons decoradores sabem o quão agradável é entrar numa casa cujos livros se amontoam nas estantes, por toda a parte, e obras de arte se acumulam com a desafetação nas paredes. Transmite instantaneamente, não apenas uma aura de bem-estar, como também um requintado estilo de vida que só os que sabem viver – e não necessitam provar nada a ninguém – conhecem.

Para concluir: não se deve quantificar o uso de uma obra de arte, assim como não se deve limitar a leitura de livros, a audiência a concertos, a assistência a peças de teatro, etc. A arte pode servir como decoração, mas subsidiariamente; assim como há quadros com o único propósito de decorar e não são vistos como obras de arte pelo seu usuário. Porém, se o autor da matéria não se referiu a quadros como obras de arte, retiro tudo o que foi dito. Nesse caso será que uma bela moldura vazia, solitária, no meio de parede, não cumpriria sua finalidade?

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Arte: emoção e diálogo / Érico Santos – Porto Alegre: Uniprom 1999. pág 19

Chaleira e cuia sobre pelegos


Cena urbana / Bric da Redenção - Porto Alegre
Parque Farroupilha - Porto Alegre
Casa Cor 2014 / São Paulo - Sig Bergamin