14 de outubro de 2018

PINTURAS SACRAS II



           -Taís Luso


A singularidade do barroco brasileiro é ser uma mistura do barroco de vários países, nascendo daí características de um estilo próprio, marca de nossos artistas, retrato de nossa cultura. Os temas sacros predominam no nosso estilo barroco. E é conhecida a atração. A arte sacra dá um toque requintado à decoração de qualquer ambiente, além de representar a fé e a cultura de um povo. E como muitas pessoas têm me solicitado mais dessa arte,  deixo mais algumas técnicas. Deixo aqui  meu abraço a vocês. 
Então vamos lá...



SANTOS DA BAHIA

Impermeabilize com goma-laca purificada as peles e detalhes - 3 vezes deixando secar entre uma demão e outra. Pinte, as roupas, com as cores originais, misturando cera em 'pasta' à tinta a óleo de bisnaga, num potinho separado.
Deixe secar um pouco essa mistura e polvilhe com talco. Deixe secar mais um pouco e retire o excesso de talco.
Onde desejar folhas de ouro, passe o verniz mordente, deixe ficar em ponto de grude e cole a folha de ouro. Se quiser dê uma passada de palha de aço (bom-bril) nas saliências para desgastar, pois santos barrocos não têm aparência de novos.

PÁTINA ECLESIÁSTICA

Pinte a peça com uma tinta latex branca - 1 demão. Espere secar.
Aplique goma laca indiana em toda a peça - 1 demão. Espere secar.
Passe tinta a óleo para tela (bisnaga) diluída em secante de cobalto nas cores: carmim, verde, branco, azul. Em listras, na vestimenta do santo, a fim de que fique todo listrado. Espere secar. Pode adiantar com secador.
Após a peça bem seca, dê 2 demãos de goma laca purificada, esperando secagem entre uma demão e outra.
Passe verniz mordente nessas partes pintadas, esperando o ponto de grude (aplicação da folha de ouro). Espere secar totalmente. Cuide para não acumular o mordente nas reentrâncias.
Espiche bem o verniz.
Folheie, então toda a peça. Aplique talco nas mãos (para absorver o suor), e pegando folha por folha, vá batendo com um pincel macio, esticando bem a folha de ouro.
Tire o excesso da folha com pincel macio deixando aparecer as tintas coloridas embaixo do ouro.
Quanto mais velho preferir, mais deverá ser retirado da folha, principalmente nas saliências.
Passe goma laca purificada - para impermeabilizar e espere secar.
Pintar rosto e mãos com tinta óleo cor da pele. Também impermeabilize com goma laca purificada.
Passe betume diluído, mais para o claro, e retire.
Deve ficar aparecendo todas as cores das vestimentas. Mas envelhecidas.




Parte do meu 1º atelier  


Textos: clique abaixo

Barroco / Aleijadinho
O Barroco e a Igreja Católica

Mais sobre arte sacra barroca e técnicas:  no índice da coluna ao lado.



28 de setembro de 2018

O QUE É ARTE PARA VOCÊ?



- Tais Luso de Carvalho

Quando me deparo com uma obra de arte, vejo seu lado estético, sua linguagem e a mensagem  que está inserida nessa obra. Vejo suas cores e seus traços. Vejo a sensibilidade do artista.

Admiro obras que retratam a nossa história, o nosso cotidiano, as injustiças sociais, a brutalidade e a miséria. Cumprem, aí, a sua mais nobre missão: a de retratar os fatos, de protestar e de clamar por mudanças. De alertar a sociedade. 


Através da arte o artista manifesta, e muitas vezes inconscientemente,  emoções que o atormentam, e que  não deixam de ter seu lado belo. 

Também vejo a Arte que alegra o espírito e prima  pela beleza: são as paisagens, cenas de bar, marinhas, festas, flores, retratos, cenas familiares, e o fantástico movimento Surrealismo - sonhos que brotam do inconsciente. Ou outras imagens que levam paz, como a arte Sacra, por exemplo. Obras que dizem algo, que retratam  uma história pra contar entre belas e coloridas nuances. Isso é arte.


Através da arte a humanidade  relatou sua história. Desde tempos remotos, o homem deixou suas pinturas  nas cavernas, importantes para o estudo da nossa espécie.


Gostar de uma obra é algo pessoal, depende da sensibilidade de cada um.  Alguém pode não gostar  do Barroco, Romantismo, Cubismo, Realismo, Impressionismo, Surrealismo, Pop Arte... Mas penso sempre em arte quando ela é pura e verdadeira. Há muito tempo que se pensa no artista quando ele é  dotado de técnica,  de espírito crítico, de criatividade.

Mas o triste  é o que vi  em algumas exposições ou  em Bienais:

 Uma porção de tijolos empilhados: é arte.
 Tocos de madeira cercados de arame farpado: é arte.
 Uma montanha de pneus acompanhados de uma placa qualquer: é arte.
 Paralelepípedos colocados em sequência, é arte.
 Uma porção de palitos de fósforos colados numa placa, é arte.
 Violência gratuita, com o sofrimento de animais  em exposição,  tenho de achar  o quê?

Será que tenho de achar tudo isso magnífico e inovador? Aplaudir o sofrimento em nome da arte? Então fica  difícil de entender e de captar certas  mensagens. Fica difícil rotular isso de arte ( para mim ).

Leio e vejo arte em vários museus, galerias, residências, oficinas e igrejas. Vejo obras dos grandes mestres, de todas as épocas, de todos os movimentos  e depois dou de cara com algumas coisas inéditas e que minha sensibilidade tem de se amoldar rapidamente. Impossível.

Não tem como eu achar que uma tripa de ferro velho é um avião, e que as asas ficam para minha imaginação. Ninguém pode ter essa imaginação, mesmo porque teria de imaginar primeiro  que a tripa seria o avião - o que já seria meio complicado.

A proposta para que o observador solte sua imaginação, deve, ao menos, partir de um princípio: dar um indício para poder se chegar a algum ponto. E a liberdade, de gostar ou não da obra, é um direito indiscutível de quem a vê.

Arte, para mim, é quando ela tem a capacidade de  emocionar ou  quando dá prazer em olhar e descobrir detalhes, técnica e transmitir alguma  mensagem dentro de uma lógica. Enfim, ver uma obra inteligente. E quem quer interagir precisa ser um pouco mais claro. É a lógica que se espera.  Essa comunicação  existe desde a antiguidade, existe na pintura clássica, moderna, contemporânea, enfim. Em todas os períodos. Em todos os movimentos.

É meio confuso que alguém escreva para si; ou em alguém que faça uma obra para ficar escondida num sótão. Tanto escrever como trabalhar uma obra de arte, é estar à busca de uma linguagem para comunicação.

A arte tem de ser uma manifestação democrática. Mas não é por ser democrática que pode exceder limites. E cabe aos que a veem, compartilhar ou não; gostar ou não. Podemos  expressar - sem medo - nosso gosto, como fazemos  na  literatura, na música, em filmes, em  teatro e tantas outras manifestações.  Por que é aceitável não gostar de uma obra literária, de Jazz, de música Clássica... e o mesmo não se dá com a Arte em si? Por que o 'não gostar' de uma obra de Arte ou de um Movimento torna-se quase uma agressão e gera discussões intermináveis? 

Há algo de errado.  Há uma paixão acima da razão. Aí, fica difícil se não pudermos ser sinceros conosco e com os outros, se estivermos dominados pelo medo de manifestar nosso gosto. 











Leia  'aqui' um texto interessante sobre  arte - de Affonso Romano de Sant'Anna.



11 de agosto de 2018

LUCIAN FREUD



Reflection - 1985  / Clique nas obras

Tais Luso de Carvalho

O pintor Lucian Freud, neto de Sigmund Freud, é um dos pintores mais importantes da arte contemporânea figurativa do Reino Unido. Suas pinturas causam polêmica por serem impactantes. Retratos e nus perturbadores, crus, nada sensuais, e geralmente  Lucian  usava  seus amigos como modelos.

'Eu pinto pessoas, não precisamente pelo que elas se parecem, não exatamente pelo que elas são, mas como eles deveriam ser ' - dizia Freud sobre seu trabalho.

Um de seus retratos, uma mulher obesa e nua em um sofá, foi vendido em 2008 por US$ 33,6 milhões. Uma das características de Lucian Freud era sua obsessão pelos nus: o corpo que ele pintava era o corpo do homem contemporâneo. Seus nus nunca trouxeram sensualidade ou beleza. Não encobria imperfeições, e os detalhes íntimos causavam um certo desconforto, uma sensação incômoda nos que olhavam as obras. Mas pode ser este o segredo de seu trabalho, o de perturbar.

'As pessoas me interessam muito, como se tratassem de animais primitivos' – disse aos curadores do Museu Britânico Tate, antes de uma retrospectiva.

Segundo uma entrevista de Paulo Pasta ao, artista plástico e professor da Fundação Armando Álvares Penteado, dada ao site CC, Freud conseguia reunir em suas pinturas todas as características do homem contemporâneo como, por exemplo, suas expressões. Outra questão importante é que, enquanto a geração mais nova pinta a partir de foto, ele partia da observação. Freud fazia parte de uma tradição muito inglesa, como Francis Bacon, com a mesma visão desviada do homem, que é mais trágica e solitária da existência humana, como muitos artistas ingleses atuais. Segue essa tradição de mostrar o cinismo, a perversidade presente no mundo.

O que a pintura dele tem de mais contemporâneo - segundo Paulo Paste - é a apreensão da solidão do homem. As figuras são muito solitárias, sofrem uma pressão existencial, lembram as obras de Samuel Beckett com seus homens encarcerados em uma espécie de quarto solitário, nus, despossuídos de tudo, destino. Outra característica contemporânea é a carnalidade de sua pintura. Ele usava tinta óleo, mas era uma tinta densa, contraponto à matéria da carne.

Freud se negava a seguir as tendências da moda na arte, usando seu estilo realista, mesmo quando era criticado pelos colecionadores e críticos. Era um dos pintores mais destacados a nível internacional, sendo reconhecido como um dos mais importantes realistas do século XX e XXI, segundo Brett Gorvy – vice presidente do departamento de arte da Christie's de Nova York.

Outra de suas características conhecidas,: entre uma pincelada e outra limpava o pincel, assim as cores mantinham sua individualidade e integridade.

Lucian Freud vivia para pintar e pintou quase até o dia de sua morte. Nasceu em Berlim em 1922 e se mudou para Londres com seus pais, Ernest e Lucie Freud em 1933, depois que Hittler e os nazistas chegaram ao poder na Alemanha. Naturalizou-se britânico seis anos depois e passou quase toda sua vida trabalhando em seu atelier na capital inglesa, localizado num luxuoso bairro de Holland Park.

Frequentava os mais badalados restaurantes, muitas vezes acompanhado de lindas mulheres, bem mais jovens, como a modelo Kate Moss a quem retratou nua.

Uma das pessoas mais famosas que Freud retratou foi a Rainha Elizabeth II que posou para o artista depois de longas negociações entre o Palácio de Buckingham e o pintor.

O retrato colorido que Freud doou à coleção da rainha causou enorme polêmica. Muitos ficaram chocados com a obra concluída. E a crítica ficou dividida: alguns críticos a veem como uma obra honesta, que transmiti algo de verdadeiro sobre tempo de serviço da rainha, experiência e devoção ao dever; outros acharam que Freud foi um pouco severo em seu naturalismo, em seu esforço para transmitir uma realidade psicológica; Freud tirou da rainha tudo o que é elegante, romântico ou bonito. Ela parece triste e sólida, e seu rosto parece ter a textura de massa de vidraceiro.

O artista nasceu em Berlin, em 1922 e faleceu aos 88 anos, em 20 de julho de 2011, Londres. As causas não foram reveladas.
Mais obras de Lucian Freud no The Museum of Modern Art - Moma


Naked Man - 1992

Suzy Boyt - ex-mulher de Lucian

Leigh Bowery - 1996
   
'Benefits Supervisor Sleeping' - 1995  
Vendido por US$ 33,6 milhões em 2008
          Um homem e sua filha - 1964  /  clique foto
Lucian Freud trabalhando

12 de julho de 2018

VICTOR BRECHERET



            
             - por Tais Luso de Carvalho 

- Monumento às Bandeiras -
Uma das maiores esculturas do mundo - em bloco de granito de 50 metros de comprimento, por 16 metros de largura e 10 de altura. São 37 figuras, ao todo. Considerada um marco da cidade, é uma homenagem aos bandeirantes paulistas que estenderam as fronteiras brasileiras e desbravaram os sertões nos séculos 17 e 18. Esta obra foi inaugurada no dia 25 de janeiro de 1953 como parte das comemorações do 399º aniversário de São Paulo.

Seu nome de origem era Vittorio Brecheret, nasceu em Farnese – Província de Viterbo / Itália, em 1894. Filho de Augusto Brecheret e Paolina Nanni - que faleceu quando o pequeno Vittorio tinha apenas 6 anos de idade. Foi acolhido pela família do tio materno, Enrico Nanni, e com sua família emigrou para São Paulo, ainda na infância. Trabalhava com o tio numa fábrica de sapatos durante o dia, e à noite fazia cursos no Liceu de Artes e Ofícios.

Mudou o nome para Victor Brecheret, recorrendo à justiça,  já com mais de trinta anos, para registrar-se no Registro Civil do jardim América – em São Paulo. Desta maneira obteve a nacionalidade, também brasileira.

O neoclassicismo dominava os círculos culturais que estimulavam as viagens de escultores à Europa à procura de vestígios, indiferentes à tensão renovadora que sacudia o velho continente.
Em 1913, já com 19 anos, seus tios o enviaram para Roma, para aprender a arte da escultura, mas dada a sua falta de formação, não foi aceito na Academia de Belas Artes. Porém, foi recebido como aluno de Arturo Dazzi, o mais famoso escultor italiano na época. Permaneceu em Roma 6 anos, voltando ao Brasil em 1919.

Frequentou vários estúdios de escultores, aprendendo a difícil arte de esculpir, como amassando o barro, aprendendo as formas e leitura do gesso, o estado da pedra e do mármore, aprendendo, também, a anatomia humana e animal, no período em que trabalhou como aluno de Dazzi.

Após estudar no Liceu de artes e Ofícios de São Paulo e em Roma, Brecheret teve seus trabalhos divulgados pelos modernistas como Di Cavalcanti, Menotti del Picchia e Mario de Andrade.
Brecheret distinguiu-se de outros escultores que transmitiam conceitos mais tradicionais. Até Monteiro Lobato, que hostilizava Anita Malfati, disse que Brecheret se apresentava como a mais séria manifestação do gênio cultural surgido naquela época.

Em Roma ganhou o primeiro prêmio na Exposição Internacional de Belas Artes. Em 1917, fixou-se em Paris, onde frequentou os grandes nomes do cubismo. De volta ao Brasil, participou da 'Semana de 22' – um dos acontecimentos mais importantes na formação do grupo modernista -, expondo suas obras no saguão do Teatro Municipal de São Paulo, juntamente com Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanto e Anita Malfatti.

Em 1934 o governo francês adquiriu a sua obra Grupo para o Museu Du Jeu de Paume e o condecorou com a Cruz da Legião de Honra.

A construção do Monumento às Bandeiras, iniciada em 1933, por vários empecilhos só foi completada quase 20 anos depois. Era um artista que falava pouco de si e de sua formação.

Brecheret foi premiado como melhor escultor nacional na I Bienal de São Paulo, em 1951, morreu em São Paulo em 18 de dezembro de 1955.




A obra Fauno - entidade campestre em 1942. Metade homem, metade cabra sobre uma pedra com um cacho de uvas e uma flauta nas mãos.




A obra Depois do Banho pode ser visto nos jardins do Largo do Arouche, na região central, inaugurada em 1932. Não há registros de que na época a nudez da obra tenha chocado os paulistanos. 








Algumas obras:

Monumento às Bandeiras / está no Ibirapuera – São Paulo
Duque de Caxias / está na Praça Princesa Isabel – São Paulo
Depois do Banho / Largo do Arouche
Fauno / está no parque Tenente Siqueira Campos – São Paulo
Eva / está na Prefeitura de São Paulo
Busto de Santos Dumont / Aeroporto de Congonhas – São Paulo
Diana Caçadora – Teatro Municipal de São Paulo
Morena – Palácio do Planalto – em Brasília
Busto do General Sampaio – Blumenau / SC
Anjo – Cemitério da Consolação – São Paulo
Anjos – Cemitério de São Paulo
Cruz – Cemitério da Consolação
Portadora de perfume / Pinacoteca de São Paulo.



Fontes:
Artistas Italianos nas Praças de São Paulo / Bruno Pedro Giovannetti Neto – São Paulo Empresa das Artes, 1992
Grandes Artistas / Sextante



14 de maio de 2018

IBERÊ CAMARGO 1914 / 1994

No Vento e na Terra - 1991


'O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.'

Eu com Fantasmagoria - na Fundação Iberê Camargo

Fantasmagoria / 1987

Um dos grandes artistas do séc. XX, com uma obra extensa, gravuras, desenho, guaches e pintura a óleo, sua obra 'Carretéis', 'Ciclistas' e 'Idiotas' são de suas fazes mais conhecidas e comentadas. Iberê sempre exerceu forte liderança no meio artístico e intelectual. Suas obras foram reverenciadas nas Bienais de Tóquio, Madri, São Paulo, Veneza assim como participou, também, de inúmeras exposições no Brasil, França, Inglaterra, Estados Unidos, Escócia, Espanha e Itália. Seu acervo é composto por mais de 7000 obras - grande parte na Fundação Iberê Camargo.

O artista nasceu no ano de 1914, em Restinga Seca /RS.
Em 1942 recebeu do Governo do Estado uma bolsa para estudar no Rio de Janeiro, e partiu com Maria, sua esposa. Não cursou todo o Belas Artes por discordar de sua orientação acadêmica.
Integra-se, na época, ao Grupo Guignard onde expõe pela primeira vez sua 'individual' em Porto Alegre. Após ter conquistado um prêmio resolveu ir para Europa estudar com André Lothe e De Chirico. Voltou ao Brasil, e não se filiou a nenhuma escola, mantendo-se independente.

Isolado, num ateliê no Edifício Róseo, e depois na Lapa, Iberê dilacerou-se para escapar das influências poderosas de Portinari, Segall e Utrillo, esta a mais marcante e duradoura.

Aproximadamente em 1958, uma hérnia de disco provocada pela suspensão de um quadro no cavalete, obrigou-o a trabalhar quase que exclusivamente no ateliê. Seja por esta razão ou por motivos inconscientes, seus quadros começaram pouco a pouco a mergulhar na sombra. O céu das paisagens tornou-se azul-escuro, negro, dando ao quadro um conteúdo de drama. Surgem, então, os carretéis sobre a mesa, depois no espaço. Os carretéis são reminiscências da infância.

O Grito - 1984


O Ciclista - 1990

Retratos, paisagens, naturezas-mortas, carretéis, explosões abstratas, tudo feito com paixão emergindo de uma força estranha. Tudo expressava um momento, muito longe da inércia.

Em 1980, num incidente em uma das ruas do Rio de Janeiro, o artista matou um homem. O caso teve enorme repercussão. Esse episódio deixou Iberê extremamente abalado fazendo com que o artista retornasse ao figurativismo. Iberê volta para Porto Alegre em 1982, abrindo seu atelier na rua Lopo Gonçalves. Continua a produzir muito, em 1986 abre seu atelier no bairro Nonoai, e lança o livro 'No andar do tempo' – 9 contos e um esboço autobiográfico.

Sua obra torna-se trágica, com figuras esquálidas, onde pode-se ver incutido no artista, a tragédia: mais solidão e sofrimento. Sua vida foi, praticamente, transportada para as telas, tanto em suas fases tumultuadas como nas mais calmas. Suas pinceladas deixaram uma história rica na trajetória das artes.
Todo o artista deixa sua vida nas telas brancas e frias; acabada a obra, tudo vira história, emoção, beleza e riqueza de detalhes. Mas, marcado por tragédias pessoais, a obra de Iberê mostra pinceladas dramáticas e amargas nos últimos anos de sua vida.

A série dos Carretéis surge por volta de 1959. Produz apenas no seu ateliê e passa a retomar temas ligados à sua infância. Ciclistas – 1984 - trazem um jogo entre o passado e o presente, usando a bicicleta como analogia do tempo. E Idiotas vem no início dos anos de 1990, quando a política do Brasil estava aos frangalhos.

Carretéis / 1958

Anos depois, bem mais adiante, veio a contrair um câncer de pulmão, levando-o a inúmeras sessões de radioterapia. E essa dramaticidade, de sua luta contra a doença ficou registrada em seus últimos trabalhos. Morre em 1994

A Idiota / 1991

De Iberê...

- As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos   dias de minha infância, guri criado na solidão da campanha do Rio Grande do Sul.


- Não há um ideal de beleza, mas o ideal de uma verdade pungente e sofrida que é a minha vida, é tua vida, é nossa vida, nesse caminhar no mundo.

- Sou impiedoso e crítico com minha obra. Não há espaço para alegria.'

- Acho que toda grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.


- A vida dói... Para mim, o tempo de fazer perguntas passou.

- O auto-retrato do pintor é pergunta que ele se faz a si mesmo, e a resposta também é interrogação.

- A verdade da obra de arte é a expressão que ela nos transmite. Nada mais do que isso!


Solidão / 1994

Minha contestação é feita de renúncia, de não-participação, de não-conivência, de não-alinhamento com o que não considero ético e justo. Sou como aqueles que, desarmados, deitam-se no meio da rua para impedir a passagem dos carros da morte. Esta forma de resistência, se praticada por todos, se constituiria em uma força irresistível. O drama trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. 
Não faço mortalha colorida. Por que sou assim?

Porque todo homem tem um dever social, um compromisso com o próximo. 





Crepúsculo da Boca do Monte - 1991

Desdobramento II - 1972


Sobre a Fundação Iberê Camargo:
Fundação Iberê Camargo / Porto Alegre, Brasil




(Homenagem) Os Carretéis - defronte à Fundação

Iberê e Maria / 54 anos casados. 
Após o falecimento do artista, Maria ficou à frente da Fundação. 
Veio a falecer aos 96 anos.


Alvaro Siza, projetou a Fundação com a obsessão ‘siziana’: desde os parafusos sextavados em aço inoxidável, figuras de sinalização das portas dos banheiros e saídas de emergência, porta-lápis, cabideiros e lixeiras do setor administrativo como, também, de todo o mobiliário. Como se vê, tudo nos mínimos detalhes.


O arquiteto português é um dos cinco arquitetos contemporâneos mais importantes do mundo. O prédio tem salas expositivas, átrio, reserva técnica, centro de documentação e pesquisa, Ateliê de Gravura, Ateliê do Programa Educativo, auditório, loja, cafeteria, estacionamento e parque ambiental projetado pela Fundação Gaia.

Com 9,5 mil metros de área construída, prédio de curvas suaves, mas impactantes, construído num terreno doado pelo Estado, parceria público-privado. 

No fundo do terreno foi preservado o paredão de rocha coberto por uma vegetação nativa. O aparelho de ar-condicionado funciona reciclando a própria energia que produz; a água que abastece os vasos sanitários vem da chuva, e sai já tratada. 


A iluminação artificial reproduz o mesmo tom da clarabóia; camadas de lã de rocha isolam os ruídos externos e o mormaço do verão de Porto Alegre; um fosso, inacessível ao olhar dos visitantes, contorna todo o prédio de maneira que, se o Guaíba transbordasse, haveria enorme espaço a preencher até chegar ao estacionamento. Tudo perfeito para acolher parte das 7 mil obras produzidas pelo artista, as quais estão protegidas por um sofisticado sistema de segurança.


13 de abril de 2018

IGREJAS: LUXO E BELEZA!



A arte no interior das igrejas foi usada como uma maneira de conquistar mais fiéis. A arte teria de contribuir para despertar uma religiosidade de cunho mais profundo. Pois foi no Renascimento que o barroco, considerado como a arte da contra-reforma, com muito luxo e formas arredondadas e rebuscadas, que a igreja católica partiu para a conquista e reconquista de seus fiéis.


Os santos, através de expressões de agonia, ternura e compaixão passaram a emocionar uma época. A arte foi utilizada para propagandear, através de suas imagens, as idéias religiosas revitalizadas e concebidas segundo o novo espírito: o de transmitir sentimentos e estados de ânimo à gente devota.


Em geral o interior das igrejas era o preferido - não o exterior. O estilo barroco na construção de igrejas surgiu como um desenvolvimento do estilo renascentista que alcançou seu apogeu na metade do século XVIII.


Deixo aqui alguns barrocos belíssimos, altar-mor, pinturas e afrescos do interior de algumas igrejas - uma arte tida como equivocada e exagerada. Pode ter sido um exagero da igreja, mas sem dúvida de uma beleza indiscutível. Como arte, sendo exagerada ou não, agradou a todos; sem dúvida foi o período de maior riqueza.


Fascinante porque emociona em ver e sentir o que a mão humana é capaz. Construiu em nome de Deus e da fé. E não em nome das guerras.

.


.


.



Catedral da Transfiguração / Moscou
São Nicolau / Praga