23 de dezembro de 2018

O BARROCO E A IGREJA CATÓLICA

Igreja Sant'Andrea al Quirinale / Lorenzo Bernini
A Igreja Católica, ao contrário dos Protestantes - que aboliram os santos de suas Igrejas - atribuiu um papel especial às artes: representar a história da religião cristã através da arte seria de maior eficácia do que contá-la. Porém os estilos artísticos da época eram estáticos, rígidos e incapazes de transmitir as novas características que a Igreja queria dar ao Catolicismo. A arte teria de contribuir para despertar uma religiosidade de cunho mais profundo.

A Igreja encontrou, então, um estilo adequado que já vinham das formas clássicas do Renascimento. Tornou o interior de suas Igrejas bem mais ricos e coloridos.

As imagens dos Santos, da Virgem Maria, do Cristo passaram a emocionar através de expressões de agonia, ternura e compaixão. Segundo um estudioso do tema 'a arte foi utilizada para propagandear em suas imagens as idéias religiosas revitalizadas e concebidas segundo o novo espírito e para transmitir sentimentos e estados de ânimo às massas devotas'.

A igreja não inventou o barroco, e sim se aproveitou das novas tendências que já vinham se desenvolvendo. O barroco pode ser considerado como a arte da Contra-Reforma. Muito luxo, colorido e ouro foram usados no interior das igrejas.

Um aspecto de muita importância do barroco é o seu caráter didático, uma vez que a maioria da população era analfabeta. O uso de imagens para reprodução da Bíblia e da vida dos Santos era um recurso poderoso para a assimilação e o entendimento. Daí tanto empenho dos papas às artes.

 Catedral de Toledo - Narciso Tomé
 Clique para zoom / Barroco brasileiro



Ordem Terceira São Francisco da Penitência / R. Janeiro


Capela dos Noviços / Recife


Clique 'AQUI' para abrir

Salvador / Brasil

2 de dezembro de 2018

CÂNDIDO PORTINARI: DIAS DE TRISTEZA...




     - Tais Luso 
Os últimos anos de Portinari foram tristes: os críticos o atacavam e os artistas novos, para os quais ele abrira o caminho, julgavam-no superado. Sofria com as críticas, porém continuava a pintar no seu estilo, não poderia se transformar num pintor abstrato, contrariar sua natureza. Dizia ele que  o valor da pintura não estava em pertencer esta ou aquela corrente, que os ignorantes confundiam arte com futebol.

Em sua tristeza, Portinari escrevia poemas: pintava de dia e escrevia de noite. Gostava de pintar e dizia que não pretendia descobrir a pólvora, que nenhuma posição o preocupava, gastava seu tempo procurando cores que se ajustassem e com isso não sobrava tempo para outras divagações.

Em 1960 nasceu sua netinha Denise - filha de João Cândido -, o que veio a diminuir muito de sua tristeza e solidão. Porém, ainda passava muitas horas de seus dias fitando o mar, sozinho, pensando em seus poemas, pensando na morte... 'Como é difícil morrer...'

No ano de 1961 viajou pela última vez à Europa, e quando voltou ao Brasil perdera a vontade de viver. Em 1962, intoxicado pela segunda vez pelo chumbo das tintas que já o atacara em 1952, não se recuperou. Faleceu às 11:40 da noite em companhia de sua mulher Maria (retrato), suas irmãs e seu médico. Seu corpo foi para o Ministério da Educação, para o edifício ao qual ele dera seu talento e esforço, o lugar onde começara sua glória. Dali saiu em carro de Bombeiro para o cemitério. Lá, foram tocados a Marcha Fúnebre e o Hino Nacional o qual milhares de pessoas ouviram sobre forte emoção.

'O homem mais triste do mundo é aquele que não tem nenhuma reserva de poesia. É o homem que cresceu demais. A criança tem as reações do poeta; quando cresce, ou a poesia se concretiza e nasce um artista, ou fica latente. O artista é o homem que nunca deixou de ser infantil.'

‘Todo artista que medite sobre os acontecimentos que perturbam o mundo chegará à conclusão de que fazendo um quadro mais 'legível’ sua arte, ao invés de perder, ganhará. E ganhará muito, porque receberá o estímulo do povo’. (1947 em Buenos Aires)





Enterro na rede 1944



Mais de Cândido Portinari:  aqui, neste blog.




- fonte: a vida dos grandes brasileiros

25 de novembro de 2018

EXPRESSIONISMO

Igreja de Auvers-sur-óise / Vincente Van Gogh

             - por Taís Luso


O Expressionismo surgiu na Alemanha, no qual os valores emocionais predominam e, encontraremos em diferentes épocas, escolas, artistas do passado tendências ou afirmações Expressionistas. As artes arcaicas , as dos selvagens e dos artistas populares, pela liberdade da técnica, deformação da imagem, exasperação da cor, recusa do realismo visual, natureza simbólica e dramaticidade, são geralmente Expressionistas. Assim como segue esta linha as pinturas de crianças e de alienados mentais.   

É a primeira grande tendência da pintura moderna. Suas manifestações iniciais datam de 1905 sob a influência de Van Gogh e do norueguês Edward Munch  /1863-1944.

Alguns artistas originais do passado, entre os quais estão Matias Grünewald (1470-1528), Jerônimo Bosch (1462-1516), El Greco (1548-1614), Goya (1746-1828), podem ser considerados como precursores do moderno Expressionismo.

As farpas de George Grosz – 1893, os murais  de Diego Rivera são obras clássicas do expressionismo moderno. Os pobres e os cangaceiros do brasileiro Portinari estão na mesma linha, saturados de críticas sociais.

Mas, no ano de 1905, na cidade alemã de Dresden, reuniram-se vários pintores: Ernst Ludwig Kirchner, Eric Henckel, Karl S.Rottluff, Max Pechstein e Emil Nolde. Organizaram-se num grupo - Die Brücke – uma denominação simbólica que significava ‘A Ponte’, algo entre o visível e o invisível. Mais tarde recebem a denominação de Expressionistas, dada pelo editor e poeta H. Walden.

Realizaram diversas exposições até 1913 quando por dissidências internas e aproximação da Primeira Grande Guerra o grupo se dispersou.

Depois da guerra, os Expressionistas alemães ressurgem mais numerosos. O advento do regime nazista, em 1933, decreta-lhes o desaparecimento. Suprimindo todas as liberdades, Hitler suprimiria, também, a da criação artística. Considera-os degenerados, expressão da decadência capitalista, dando início a uma perseguição e expulsando-os da Alemanha.

Terminada a segunda guerra e destruído o nazismo, reapareceram as tendências Expressionistas alemãs, inclusive e, sobretudo, nas formas abstratas.
O pintor Expressionista é o contrário do Impressionista: o seu conhecimento e interpretação do mundo fazem-se à base de sentimentos, não de sensações. Aparecem sentimentos de amargura, interrogações espirituais, pessimismo, críticas sociais e políticas. Não tem por objetivo representar visualmente as aparências da natureza ou as imagens exteriores, mas utilizá-las para expressar suas realidades interiores, de modo direto e intenso. Era o que Van Gogh fazia.

Por esse motivo, pela veemência dos sentimentos do artista, o Expressionismo é uma pintura deformadora das imagens da realidade. A deformação torna-se, portanto, a característica mais geral da pintura expressionista. Para melhor exprimir sentimentos intensos e geralmente dramáticos a pintura Expressionista não pode ter maiores preocupações com a criação de valores predominantemente estéticos, isto é, valores rítmicos de composição, valores plásticos de formas e cores ou valores baseados na regularidade da forma e no equilíbrio das proporções. O Expressionismo não permite princípios tradicionais de beleza. É a explosão da emoção.

O Expressionismo recusa o aprendizado técnico, no sentido tradicional; cada pintor cria uma técnica pessoal, adequada aos seus fins expressivos, realmente intransferível. O pintor expressionista é um solitário, desenhando e pintando de acordo com as exigências de sua sensibilidade.

Os Retirantes / Portinari

Antonio Veronese

Solo / Max Weber 1918
Die Eltern des Künstlers / Otto Dix - 1926
O Grito / Edvard Munch





2 de novembro de 2018

ARTE CONCEITUAL

Merda d'artista / 1961 - Piero Manzoni 
( leia abaixo a história das Latinhas...)

 
- Tais Luso de Carvalho


Arte Conceitual surgiu na década de 1960, como um desafio às classificações impostas à arte por museus e galerias. As galerias afirmavam categoricamente ao público: 
Isso é arte
Já a arte Conceitual buscava questionar a própria natureza da arte perguntando: 
O que é arte?

O primeiro a empregar a expressão arte-conceito foi o escritor e músico Henry Flynt em 1961 em meio às atividades associadas ao grupo Fluxus, de Nova Iorque, querendo dizer com isso que a arte conceitual é um tipo de arte que o material é a linguagem.

Os artistas conceituais tinham como meta popularizar a arte; fazer com que ela servisse como veículo de comunicação. A arte conceitual foi importante para debates e abriu caminhos para outros tipos de artes, como para as instalações e arte performática. 

Na  década de 60 e 70, o nome conceitual foi empregado para designar uma multiplicidade de atividades com base na linguagem, na fotografia e processos nos quais se equivaliam num embate que se efetuava entre a arte minimalista e várias práticas antiformais, num crescente radicalismo cultural e político.

Portanto a ideia e o conceito da obra era mais importante que o produto acabado. Do que a estética. Essa noção remonta a Duchamp, mas só se estabeleceu no mundo artístico a partir de 1960, quando se tornou um fenômeno internacional de grande importância. Duchamp marcou sua posição com um suporte para garrafas, uma pá de neve e um urinol, embora tenha usado esta linguagem como uma crítica à arte. Em suas obras, trocadilhos e brincadeiras estes artistas levantaram sérias questões sobre as fronteiras da arte.

Muitas iniciativas surgiam diretamente das formas de uma arte conceitual politizada, embora os envolvidos se vissem, depois do rompimento com o exercício da arte enquanto tal, totalmente desvinculados dessa esfera, em nome de um envolvimento mais prático com as mais amplas instâncias sociais.

A característica comum de toda a obra chamada e vista como conceitual não é ver o objeto, sua plástica, mas sim seu recado, a discussão de um assunto, a comunicação, passar a ideia, a interação entre o artista e o espectador. Levantar discussões e reflexões.

A obra vem para apresentar no tempo e no espaço, certas situações ou acontecimentos. Comunicação. Os artistas sentiram-se livres da representação pictórica, e declararam o processo mental como obra de arte. Nada era mais importante do que isso.

Logicamente muitos artistas apresentam obras desinteressantes, comuns, triviais do ponto de vista visual: mapas, diagramas, fitas de som e de vídeo, fotografias, textos etc.

Um exemplo conhecido é a obra Uma e Três Cadeiras, de Joseph Kosuth (Museu de Arte Moderna em Nova Iorque / 1965) que combina uma cadeira real, a fotografia da cadeira e uma definição de cadeira  – dada pelo dicionário.

A abordagem de Joseph Kosut fez-se cada vez mais aguçada, forçando o ritmo em uma série de obras que se tornaram ícones da arte conceitual.

O Conceitualismo assumiu uma dupla identidade: uma arte conceitual analítica é rebaixada, como arte feita por homens brancos racionalistas, atolados no próprio modernismo que almejavam criticar. 


História das Latinhas de Manzoni


Como a arte conceitual também era uma arte que tinha por meta reagir à arte como mercadoria, o artista italiano Piero Manzoni produziu, em 1961, 90 latinhas com o rótulo de Merda d'artista. Cada lata, supostamente, continha fezes do artista e valia seu peso em ouro. Como se acreditava que,  abrindo as latas significaria destruir o valor da obra, durante muito tempo não se soube ao certo o que as latinhas continham de fato. Porém, em 2007, depois que algumas latas foram vendidas pelo valor de US$ 80 mil, o colaborador de Manzoni, Agostino Bonalumi afirmou a um jornal italiano que as latas continham gesso!


- Suporte para Garrafas - 
Duchamp foi o precursor da Arte Conceitual


- Joseph Kosuth -   
Uma cadeira real, a fotografia da cadeira e uma definição de cadeira. 


 Sindicatos Unidos contra o Racismo - 
 Gregor cullen e Redback Grafixx / 1985


Daniel Buren / Affichage sauvage - 1968


Mala de couro contendo livro, cartas, cópias fotostáticas, pequenos frascos...
Museu de Arte Moderna de Nova Iorque - 1966


Keith Arnatt / Registro de sua própria condição

Robert Rauschenberg / Factum  II - 1957



Fontes:
Movimentos da Arte Moderna - Paul Wood
Tudo sobre Arte - ed.Sextante
Dicionário Oxford de Arte



14 de outubro de 2018

PINTURAS SACRAS II



           -Taís Luso


A singularidade do barroco brasileiro é ser uma mistura do barroco de vários países, nascendo daí características de um estilo próprio, marca de nossos artistas, retrato de nossa cultura. Os temas sacros predominam no nosso estilo barroco. E é conhecida a atração. A arte sacra dá um toque requintado à decoração de qualquer ambiente, além de representar a fé e a cultura de um povo. E como muitas pessoas têm me solicitado mais dessa arte,  deixo mais algumas técnicas. Deixo aqui  meu abraço a vocês. 
Então vamos lá...



SANTOS DA BAHIA

Impermeabilize com goma-laca purificada as peles e detalhes - 3 vezes deixando secar entre uma demão e outra. Pinte, as roupas, com as cores originais, misturando cera em 'pasta' à tinta a óleo de bisnaga, num potinho separado.
Deixe secar um pouco essa mistura e polvilhe com talco. Deixe secar mais um pouco e retire o excesso de talco.
Onde desejar folhas de ouro, passe o verniz mordente, deixe ficar em ponto de grude e cole a folha de ouro. Se quiser dê uma passada de palha de aço (bom-bril) nas saliências para desgastar, pois santos barrocos não têm aparência de novos.

PÁTINA ECLESIÁSTICA

Pinte a peça com uma tinta latex branca - 1 demão. Espere secar.
Aplique goma laca indiana em toda a peça - 1 demão. Espere secar.
Passe tinta a óleo para tela (bisnaga) diluída em secante de cobalto nas cores: carmim, verde, branco, azul. Em listras, na vestimenta do santo, a fim de que fique todo listrado. Espere secar. Pode adiantar com secador.
Após a peça bem seca, dê 2 demãos de goma laca purificada, esperando secagem entre uma demão e outra.
Passe verniz mordente nessas partes pintadas, esperando o ponto de grude (aplicação da folha de ouro). Espere secar totalmente. Cuide para não acumular o mordente nas reentrâncias.
Espiche bem o verniz.
Folheie, então toda a peça. Aplique talco nas mãos (para absorver o suor), e pegando folha por folha, vá batendo com um pincel macio, esticando bem a folha de ouro.
Tire o excesso da folha com pincel macio deixando aparecer as tintas coloridas embaixo do ouro.
Quanto mais velho preferir, mais deverá ser retirado da folha, principalmente nas saliências.
Passe goma laca purificada - para impermeabilizar e espere secar.
Pintar rosto e mãos com tinta óleo cor da pele. Também impermeabilize com goma laca purificada.
Passe betume diluído, mais para o claro, e retire.
Deve ficar aparecendo todas as cores das vestimentas. Mas envelhecidas.




Parte do meu 1º atelier  


Textos: clique abaixo

Barroco / Aleijadinho
O Barroco e a Igreja Católica

Mais sobre arte sacra barroca e técnicas:  no índice da coluna ao lado.



28 de setembro de 2018

O QUE É ARTE PARA VOCÊ?



- Tais Luso de Carvalho

Quando me deparo com uma obra de arte, vejo seu lado estético, sua linguagem e a mensagem  que está inserida nessa obra. Vejo suas cores e seus traços. Vejo a sensibilidade do artista.

Admiro obras que retratam a nossa história, o nosso cotidiano, as injustiças sociais, a brutalidade e a miséria. Cumprem, aí, a sua mais nobre missão: a de retratar os fatos, de protestar e de clamar por mudanças. De alertar a sociedade. 


Através da arte o artista manifesta, e muitas vezes inconscientemente,  emoções que o atormentam, e que  não deixam de ter seu lado belo. 

Também vejo a Arte que alegra o espírito e prima  pela beleza: são as paisagens, cenas de bar, marinhas, festas, flores, retratos, cenas familiares, e o fantástico movimento Surrealismo - sonhos que brotam do inconsciente. Ou outras imagens que levam paz, como a arte Sacra, por exemplo. Obras que dizem algo, que retratam  uma história pra contar entre belas e coloridas nuances. Isso é arte.


Através da arte a humanidade  relatou sua história. Desde tempos remotos, o homem deixou suas pinturas  nas cavernas, importantes para o estudo da nossa espécie.


Gostar de uma obra é algo pessoal, depende da sensibilidade de cada um.  Alguém pode não gostar  do Barroco, Romantismo, Cubismo, Realismo, Impressionismo, Surrealismo, Pop Arte... Mas penso sempre em arte quando ela é pura e verdadeira. Há muito tempo que se pensa no artista quando ele é  dotado de técnica,  de espírito crítico, de criatividade.

Mas o triste  é o que vi  em algumas exposições ou  em Bienais:

 Uma porção de tijolos empilhados: é arte.
 Tocos de madeira cercados de arame farpado: é arte.
 Uma montanha de pneus acompanhados de uma placa qualquer: é arte.
 Paralelepípedos colocados em sequência, é arte.
 Uma porção de palitos de fósforos colados numa placa, é arte.
 Violência gratuita, com o sofrimento de animais  em exposição,  tenho de achar  o quê?

Será que tenho de achar tudo isso magnífico e inovador? Aplaudir o sofrimento em nome da arte? Então fica  difícil de entender e de captar certas  mensagens. Fica difícil rotular isso de arte ( para mim ).

Leio e vejo arte em vários museus, galerias, residências, oficinas e igrejas. Vejo obras dos grandes mestres, de todas as épocas, de todos os movimentos  e depois dou de cara com algumas coisas inéditas e que minha sensibilidade tem de se amoldar rapidamente. Impossível.

Não tem como eu achar que uma tripa de ferro velho é um avião, e que as asas ficam para minha imaginação. Ninguém pode ter essa imaginação, mesmo porque teria de imaginar primeiro  que a tripa seria o avião - o que já seria meio complicado.

A proposta para que o observador solte sua imaginação, deve, ao menos, partir de um princípio: dar um indício para poder se chegar a algum ponto. E a liberdade, de gostar ou não da obra, é um direito indiscutível de quem a vê.

Arte, para mim, é quando ela tem a capacidade de  emocionar ou  quando dá prazer em olhar e descobrir detalhes, técnica e transmitir alguma  mensagem dentro de uma lógica. Enfim, ver uma obra inteligente. E quem quer interagir precisa ser um pouco mais claro. É a lógica que se espera.  Essa comunicação  existe desde a antiguidade, existe na pintura clássica, moderna, contemporânea, enfim. Em todas os períodos. Em todos os movimentos.

É meio confuso que alguém escreva para si; ou em alguém que faça uma obra para ficar escondida num sótão. Tanto escrever como trabalhar uma obra de arte, é estar à busca de uma linguagem para comunicação.

A arte tem de ser uma manifestação democrática. Mas não é por ser democrática que pode exceder limites. E cabe aos que a veem, compartilhar ou não; gostar ou não. Podemos  expressar - sem medo - nosso gosto, como fazemos  na  literatura, na música, em filmes, em  teatro e tantas outras manifestações.  Por que é aceitável não gostar de uma obra literária, de Jazz, de música Clássica... e o mesmo não se dá com a Arte em si? Por que o 'não gostar' de uma obra de Arte ou de um Movimento torna-se quase uma agressão e gera discussões intermináveis? 

Há algo de errado.  Há uma paixão acima da razão. Aí, fica difícil se não pudermos ser sinceros conosco e com os outros, se estivermos dominados pelo medo de manifestar nosso gosto. 











Leia  'aqui' um texto interessante sobre  arte - de Affonso Romano de Sant'Anna.



11 de agosto de 2018

LUCIAN FREUD



Reflection - 1985  / Clique nas obras

Tais Luso de Carvalho

O pintor Lucian Freud, neto de Sigmund Freud, é um dos pintores mais importantes da arte contemporânea figurativa do Reino Unido. Suas pinturas causam polêmica por serem impactantes. Retratos e nus perturbadores, crus, nada sensuais, e geralmente  Lucian  usava  seus amigos como modelos.

'Eu pinto pessoas, não precisamente pelo que elas se parecem, não exatamente pelo que elas são, mas como eles deveriam ser ' - dizia Freud sobre seu trabalho.

Um de seus retratos, uma mulher obesa e nua em um sofá, foi vendido em 2008 por US$ 33,6 milhões. Uma das características de Lucian Freud era sua obsessão pelos nus: o corpo que ele pintava era o corpo do homem contemporâneo. Seus nus nunca trouxeram sensualidade ou beleza. Não encobria imperfeições, e os detalhes íntimos causavam um certo desconforto, uma sensação incômoda nos que olhavam as obras. Mas pode ser este o segredo de seu trabalho, o de perturbar.

'As pessoas me interessam muito, como se tratassem de animais primitivos' – disse aos curadores do Museu Britânico Tate, antes de uma retrospectiva.

Segundo uma entrevista de Paulo Pasta ao, artista plástico e professor da Fundação Armando Álvares Penteado, dada ao site CC, Freud conseguia reunir em suas pinturas todas as características do homem contemporâneo como, por exemplo, suas expressões. Outra questão importante é que, enquanto a geração mais nova pinta a partir de foto, ele partia da observação. Freud fazia parte de uma tradição muito inglesa, como Francis Bacon, com a mesma visão desviada do homem, que é mais trágica e solitária da existência humana, como muitos artistas ingleses atuais. Segue essa tradição de mostrar o cinismo, a perversidade presente no mundo.

O que a pintura dele tem de mais contemporâneo - segundo Paulo Paste - é a apreensão da solidão do homem. As figuras são muito solitárias, sofrem uma pressão existencial, lembram as obras de Samuel Beckett com seus homens encarcerados em uma espécie de quarto solitário, nus, despossuídos de tudo, destino. Outra característica contemporânea é a carnalidade de sua pintura. Ele usava tinta óleo, mas era uma tinta densa, contraponto à matéria da carne.

Freud se negava a seguir as tendências da moda na arte, usando seu estilo realista, mesmo quando era criticado pelos colecionadores e críticos. Era um dos pintores mais destacados a nível internacional, sendo reconhecido como um dos mais importantes realistas do século XX e XXI, segundo Brett Gorvy – vice presidente do departamento de arte da Christie's de Nova York.

Outra de suas características conhecidas,: entre uma pincelada e outra limpava o pincel, assim as cores mantinham sua individualidade e integridade.

Lucian Freud vivia para pintar e pintou quase até o dia de sua morte. Nasceu em Berlim em 1922 e se mudou para Londres com seus pais, Ernest e Lucie Freud em 1933, depois que Hittler e os nazistas chegaram ao poder na Alemanha. Naturalizou-se britânico seis anos depois e passou quase toda sua vida trabalhando em seu atelier na capital inglesa, localizado num luxuoso bairro de Holland Park.

Frequentava os mais badalados restaurantes, muitas vezes acompanhado de lindas mulheres, bem mais jovens, como a modelo Kate Moss a quem retratou nua.

Uma das pessoas mais famosas que Freud retratou foi a Rainha Elizabeth II que posou para o artista depois de longas negociações entre o Palácio de Buckingham e o pintor.

O retrato colorido que Freud doou à coleção da rainha causou enorme polêmica. Muitos ficaram chocados com a obra concluída. E a crítica ficou dividida: alguns críticos a veem como uma obra honesta, que transmiti algo de verdadeiro sobre tempo de serviço da rainha, experiência e devoção ao dever; outros acharam que Freud foi um pouco severo em seu naturalismo, em seu esforço para transmitir uma realidade psicológica; Freud tirou da rainha tudo o que é elegante, romântico ou bonito. Ela parece triste e sólida, e seu rosto parece ter a textura de massa de vidraceiro.

O artista nasceu em Berlin, em 1922 e faleceu aos 88 anos, em 20 de julho de 2011, Londres. As causas não foram reveladas.
Mais obras de Lucian Freud no The Museum of Modern Art - Moma


Naked Man - 1992

Suzy Boyt - ex-mulher de Lucian

Leigh Bowery - 1996
   
'Benefits Supervisor Sleeping' - 1995  
Vendido por US$ 33,6 milhões em 2008
          Um homem e sua filha - 1964  /  clique foto
Lucian Freud trabalhando

12 de julho de 2018

VICTOR BRECHERET



            
             - por Tais Luso de Carvalho 

- Monumento às Bandeiras -
Uma das maiores esculturas do mundo - em bloco de granito de 50 metros de comprimento, por 16 metros de largura e 10 de altura. São 37 figuras, ao todo. Considerada um marco da cidade, é uma homenagem aos bandeirantes paulistas que estenderam as fronteiras brasileiras e desbravaram os sertões nos séculos 17 e 18. Esta obra foi inaugurada no dia 25 de janeiro de 1953 como parte das comemorações do 399º aniversário de São Paulo.

Seu nome de origem era Vittorio Brecheret, nasceu em Farnese – Província de Viterbo / Itália, em 1894. Filho de Augusto Brecheret e Paolina Nanni - que faleceu quando o pequeno Vittorio tinha apenas 6 anos de idade. Foi acolhido pela família do tio materno, Enrico Nanni, e com sua família emigrou para São Paulo, ainda na infância. Trabalhava com o tio numa fábrica de sapatos durante o dia, e à noite fazia cursos no Liceu de Artes e Ofícios.

Mudou o nome para Victor Brecheret, recorrendo à justiça,  já com mais de trinta anos, para registrar-se no Registro Civil do jardim América – em São Paulo. Desta maneira obteve a nacionalidade, também brasileira.

O neoclassicismo dominava os círculos culturais que estimulavam as viagens de escultores à Europa à procura de vestígios, indiferentes à tensão renovadora que sacudia o velho continente.
Em 1913, já com 19 anos, seus tios o enviaram para Roma, para aprender a arte da escultura, mas dada a sua falta de formação, não foi aceito na Academia de Belas Artes. Porém, foi recebido como aluno de Arturo Dazzi, o mais famoso escultor italiano na época. Permaneceu em Roma 6 anos, voltando ao Brasil em 1919.

Frequentou vários estúdios de escultores, aprendendo a difícil arte de esculpir, como amassando o barro, aprendendo as formas e leitura do gesso, o estado da pedra e do mármore, aprendendo, também, a anatomia humana e animal, no período em que trabalhou como aluno de Dazzi.

Após estudar no Liceu de artes e Ofícios de São Paulo e em Roma, Brecheret teve seus trabalhos divulgados pelos modernistas como Di Cavalcanti, Menotti del Picchia e Mario de Andrade.
Brecheret distinguiu-se de outros escultores que transmitiam conceitos mais tradicionais. Até Monteiro Lobato, que hostilizava Anita Malfati, disse que Brecheret se apresentava como a mais séria manifestação do gênio cultural surgido naquela época.

Em Roma ganhou o primeiro prêmio na Exposição Internacional de Belas Artes. Em 1917, fixou-se em Paris, onde frequentou os grandes nomes do cubismo. De volta ao Brasil, participou da 'Semana de 22' – um dos acontecimentos mais importantes na formação do grupo modernista -, expondo suas obras no saguão do Teatro Municipal de São Paulo, juntamente com Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanto e Anita Malfatti.

Em 1934 o governo francês adquiriu a sua obra Grupo para o Museu Du Jeu de Paume e o condecorou com a Cruz da Legião de Honra.

A construção do Monumento às Bandeiras, iniciada em 1933, por vários empecilhos só foi completada quase 20 anos depois. Era um artista que falava pouco de si e de sua formação.

Brecheret foi premiado como melhor escultor nacional na I Bienal de São Paulo, em 1951, morreu em São Paulo em 18 de dezembro de 1955.




A obra Fauno - entidade campestre em 1942. Metade homem, metade cabra sobre uma pedra com um cacho de uvas e uma flauta nas mãos.




A obra Depois do Banho pode ser visto nos jardins do Largo do Arouche, na região central, inaugurada em 1932. Não há registros de que na época a nudez da obra tenha chocado os paulistanos. 








Algumas obras:

Monumento às Bandeiras / está no Ibirapuera – São Paulo
Duque de Caxias / está na Praça Princesa Isabel – São Paulo
Depois do Banho / Largo do Arouche
Fauno / está no parque Tenente Siqueira Campos – São Paulo
Eva / está na Prefeitura de São Paulo
Busto de Santos Dumont / Aeroporto de Congonhas – São Paulo
Diana Caçadora – Teatro Municipal de São Paulo
Morena – Palácio do Planalto – em Brasília
Busto do General Sampaio – Blumenau / SC
Anjo – Cemitério da Consolação – São Paulo
Anjos – Cemitério de São Paulo
Cruz – Cemitério da Consolação
Portadora de perfume / Pinacoteca de São Paulo.



Fontes:
Artistas Italianos nas Praças de São Paulo / Bruno Pedro Giovannetti Neto – São Paulo Empresa das Artes, 1992
Grandes Artistas / Sextante