18 de outubro de 2008

O QUE É ARTE, AFINAL?

Rosa Meditativa 1958 / Salvador Dali



Tais Luso de Carvalho

Gostar de arte é algo subjetivo, depende da sensibilidade de cada um. Tenho o meu conceito, mas não quer dizer que seja o certo. É o certo para mim. Alguém pode não gostar da fase do Barroco, Romantismo, Cubismo, Realismo, Impressionismo, Surrealismo, Pop Arte... Mas penso em arte quando ela é pura e verdadeira - não empulhação. Penso no artista quando ele é dotado de dom, de excelente técnica, de bom gosto e de espírito crítico. Partindo deste princípio, algo de bom estará a caminho. Jamais virá, deste artista, um horror. Por certo ele terá algumas de suas obras mais apreciadas do que outras. Normal.

Horror, pra mim, é o que vejo em certas Bienais:
Vejo uma porção de tijolos empilhados: é arte.
Vejo tocos de madeira cercados de arame farpado: é arte.
Vejo um maluco que resolveu fazer, de um assento de vaso sanitário uma moldura para espelho: é arte.
Vejo uma montanha de pneus acompanhados de uma placa qualquer: é arte.
Vejo paralelepípedos colocados em sequência, é arte.
Vejo uma porção de palitos de fósforos colados numa tela de Eucatex, é arte.
Vejo um copo largado sobre uma mesa, é arte.

Será que tenho de achar tudo isso magnífico e inovador? Chego à conclusão que estou fora do contexto. Tá difícil de entender. Faço uma força incrível para achar tudo isso uma maravilha. Mas dá errado; algo não funciona em minha percepção.

Leio e vejo arte em vários museus, galerias, residências, oficinas e igrejas. Vejo obras de Rembrandt, Michelangelo, Da Vinci, Renoir, Cézanne, Dali, Juarez Machado, Di Cavalcante, Manoel Santiago, H. Perea, Portinari, Manabu Mabe e por aí afora, e passando por obras de todos os movimentos. E depois dou de cara com algumas coisas inéditas e que minha sensibilidade tem de se amoldar rapidamente. Não dá. Sou meio vagarosa. Lerda.

Gosto da Pop Art, foi aí que começou a mistura de objetos. Surgiram artistas como Andy Warhol – representante máximo desta arte popular nos Estados Unidos, com sua conhecida Marilyn, entre outras pinturas. Não posso achar ruim Allen Jones, Richard Hanilton, Roy Lichtenstein ou Wesselmann, grandes artistas. Muitos de seus trabalhos são populares e alegres: bonitos e técnicos.

Há artistas espetaculares em todas as fases e em todas as épocas. São muitos. Só não gosto de ser enganada. Não quero ninguém tentando me convencer que uma tripa de ferro velho é um avião, e que as asas ficam para minha imaginação... Não quero imaginar: mesmo porque teria de imaginar que a ‘tripa’ seria o avião, o que já seria meio complicado. Proponho-me a soltar minha imaginação quando, pelo menos, há um indício de que vou chegar a algum ponto. E a liberdade, de gostar ou não da obra, é um direito indiscutível de quem a vê.

Arte, para mim, é quando ela tem a capacidade de me emocionar, de me fazer sonhar, quando me dá prazer em olhar e descobrir detalhes, técnica, perfeição e beleza. Enfim, ver uma obra inteligente. E isso existe na pintura clássica, moderna, contemporânea, enfim. De todas as escolas e períodos. Arte é o contrário do grotesco, do repetitivo. É imaginação e técnica, pois vai ao encontro de nossos sentimentos.

Mas fico a pensar o quanto não seria emocionante ter vários palitos colados em Eucatex e um troço desses dependurado na parede de minha sala... Substituiria qualquer  grande artista.
Além de sonhar com essa palitada toda, ainda chamaria essa obra de Palitos em Profusão.
Porém, respeito o direito de cada um em gostar ou não de uma obra, isso não é nada mais do que ser democrático.

8 comentários:

wallper.lima disse...

Taís Luso quero te dizer que adorei seu blog no todo, tanto visual, quanto postagens e esse acervo tão grande de visitas a museus, onde tantas pessoas, não tem esse privilégio de chegar nem perto...vc esta de parabéns, por td isso, e pelas postagens, em particular, essa a qual estou fazendo esse comentário. Concordo com td s/analise, e acredito que hoje mta coisa é confundida e perdida pelo banalismo, gerado por falta de conhecimento, ou excesso, mas sem alma, capaz de gerar coisas belas e que valham realmente a pena.
Sou artista plástica e tb sinto, td isso, essa mistura, esse amaranhado de coisas que se confundem e não se definem, e que empobrecem esse mundo tão rico e vasto que é a " ARTE ". Basta retornarmos aos homens que viviam em cavernas, onde desenhavam, e pintavam, sem nenhum conhecimento,sem td essa tecnologia que temos hoje, isso sim é descoberta, o início de td.
Tenho um blog e gostaria q/vc pudesse me visitar, e se possível deixasse um comentário, pois sua opinião seria mto importante p/mim.
http://www.wallperlima.blogspot.com
- Eu e a Arte - um abraço.Waleria.

wallper.lima disse...

Oi! Aqui estou nova/para dizer q/adorei s/visita, e espero vê-la sempre por aqui...
Não sei se tenho certeza,mas vc é gaúcha?
Me aguarde pois vou ler com calma o blog Porto das Crônicas e depois te falo alguma coisa, tá?
Um abraço e até mais. Waleria Lima.

ART PERCEPTIONS disse...

Uma obra de arte necessariamente tem que passar uma mensagem de forma subjetiva. Para passar uma mensagem de forma objetiva existe a matemática, e se não há mensagem nenhuma a ser transmitida, não há arte.
Baseado nisso, como podemos diferenciar alta cultura e baixa cultura? Simples:

- quanto mais elaborada é a mensagem melhor; um funk que apele explicitamente para o sexo é extrema baixa cultura, uma ária de uma ópera que exalte os sentimentos da encenação é extrema alta cultura.
- quanto maior o esforço do artista na busca da perfeição melhor, Michelangelo só utilizava mármore de Carrara em suas esculturas por que era o melhor material disponível, ou ainda se enfiava na mata a procura de flores com cores distintas para suas pinturas ficarem mais fidedignas.
- quanto maior o acoplamento da mensagem com a verdade melhor, fazer um filme com roteiro mirabolante ou forçado é baixa cultura, retratar a melancolia diária que vive a população de uma certa região como fez Edward Hopper é extrema alta cultura.
- quanto maior o pioneirismo do artista na utilização da linguagem melhor; replicar músicas estrangeiras traduzidas como muitos músicos brasileiros gostam de fazer não passa de plágio barato, já retratar prostitutas (Le Mademoiselles de Avignon) com rostos demoníacos inspirados em máscaras africanas como fez Picasso é transcender na linguagem.

Essa é a minha definição de arte.
Agora entendo sua agonia ao ver um monte de lixo sendo rotulado como arte, mas não precisa se estressar, para estes casos o filtro do tempo é implacável. Daqui a 50 anos serão lembrados funks pornográficos, livros do Paulo Coelho e palitos de fósforo colados numa tela? Tenho certeza que não. E pinturas de Kerry Hallam, livros do Saramago e filmes de Stanley Kubrick (só pra citar alguns exemplos)? Tenho certeza que sim, não só lembrados como ovacionados como o melhor da produção artística do nosso tempo.

M. Sueli Gallacci disse...

Tais, quanto mais eu leio teus textos, mais me impressiono... neste, então, dissestes tudo que tenho vontade de dizer... ARTE prá mim não tem nenhum compromisso com a realidade, mas tem um compromisso muito sério, que é com o BELO!!!
Eu até mesmo costumo dizer que " se passo diante de um quadro e não olho prá ele, então ele não existe. Não posso chamá-lo de ARTE".
Quando decidimos "fazer arte" não mais fazemos somente p/ nós mesmo, e sim p/ o observador...e ele merece respeito.
Ganhei rótulo de antiquada, careta, por esse meu conceito... mas não sou... sou, sim,um tantinho conservadora... no que que faço no que penso... não somente no campo das artes, mas tbm em relação à familia, as atitudes, na ética e nos valores morais...não creio que tudo isso seja coisa do passado.
Vou postar este teu texto no meu blog, tão logo termine de postar minha apostila teórica... Quero que todos vejam, pois até o presente momento, eu tbm me achava fora de contexto, por NÂO conseguir "ver" arte em coisas que até meu netinho de 2 anos (q ainda não faz pleno uso da razão) é capaz de fazer.
Mil vezes parabéns, querida!!!

Luis Alfredo disse...

Prezada Tais e todos,
Segue minha contribuição, que não é minha, e sim de Augusto de Campos.
ISSO É ARTE????
Uma artista inglesa expôs e vendeu a uma galeria, por 350 mil Dólares, a cama onde ela passou a noite trepando e onde havia várias camisinhas usadas. Isso é arte?
O artista belga Win Delvoye enviou para a Bienal de Veneza uma lata contendo seu cocô. A obra foi denominada “Merda do artista”. No ano seguinte, ele industrializou o processo, criando, com um projeto de 200 mil dólares, uma engenhoca que fabrica merda, vendendo cada latinha dessa merda por 1.000 dólares. Em 2002 uma dessas latinhas foi comprada pela Tate Galery por quase um milhão de libras. Isso é cocô, quer dizer, isso é arte?
Esses são apenas alguns dos exemplos das dezenas de obras de “arte contemporânea” que têm seu estatuto de valor estético questionado por Affonso Romano de Sant'Anna no seu ousado livro Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão (editora Vieira & Lent, 2003).
E ao artista resta alguma decisão? Quantos artistas não estão traumatizados, paralisados, congelados de medo diante do desejo de pintar figuras, como se os talibãs os fossem pegar em flagrante?, questiona Sant'Anna.
Mas, diz o autor, é preciso começar a contestar os próprios contestadores que, de um momento para outro, se petrificaram, se academizaram, se midiatizaram. Segundo seu diagnóstico, Duchamp deu um xeque-mate na arte há quase 100 anos e, desde então, ela ficou paralisada, prisioneira de sua própria revolução. E é Duchamp, pai da arte conceitual, e seus correligionários, os alvos principais dos ataques de Sant'Anna.
Afinal, não foi o próprio abusado Duchamp que dizia que seus seguidores haviam se tornaram vítimas de sua própria artimanha? “Joguei o urinol na cara deles como desafio e agora eles o admiram como um objeto de arte por sua beleza estética”.
“Embora o urinol tivesse desaparecido daquela exposição em Nova York, para onde Duchamp o enviou, ele começou a produzir cópias de seu urinol, a assiná-las para diversos museus para inseri-las no sistema artístico que condenara. Só em 1964 autenticou oito outras peças semelhantes, caindo na repetição que tantas vezes condenou. O anti-artista virou artista, a anti-arte, arte. O feitiço virou contra o feiticeiro. O contestador sucumbiu à cultura do mercado. E, no final da década de 90, a Tate Gallery de Londres comprou uma das cópias por quase um milhão de libras”, diz Sant ´Anna.
Pensar Duchamp através de suas próprias problematizações é desconstruir o desconstrutor. O livro se encarrega dessa tarefa blasfema com muita propriedade.
O urinol nos revelou que todos podemos ser artistas, basta termos a atitude de escolher um objeto qualquer e denominá-lo arte. O trabalho braçal teve dessa forma seus dias contados (técnica para quê?). O que interessa é a receita, não o bolo. Interessa o conceito, não o fazer. Dessa forma tudo pode ser arte... se assim o quisermos.
Se tudo é arte, nada é arte. Se uma gosma espermática ou um bule velho de café podem ser arte, qualquer leigo, sem o mínimo talento para a arte, poderia se perguntar: por que não eu também? Calma lá, tudo bem que democratizamos o “talento”, mas nem todos podem ser chamados de “artista”. Apenas os que o sistema artístico, composto por leiloeiros, curadores, galeristas e divulgadores (não críticos de arte), amparados numa estratégia de marketing que renderá alguns bons dólares, decidir chamar de artista será artista. Estes produzirão o que veremos nas Bienais distribuídas pelo mundo afora.
Interrogações: quem nunca sentiu uma enorme insatisfação, um tremendo vazio, diante de uma coleção de obras “contemporâneas” expostas nas mais famosas galerias e bienais de arte do mundo? Quem nunca sentiu que ali não havia grande coisa para se apreciar ou que desse o que pensar? Quem é que após estar diante da presença arrebatadora da pintura de um Edward Munch, de um Francis Bacon (participantes anos atrás da Bienal de São Paulo na seção “histórica”), Texto extraído de: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1709

Tais Luso disse...

LUIS ALFREDO: agradeço este maravilhoso texto de Augusto de Campos. Tenho o livro 'Desconstruir Duchamp' do Affonso Romano, ótimo.

Trago para cá - para complementar seu comentário -, a parte final que faltou, talvez você não quis postar aqui pelo espaço, mas acho que esta visão merece todos os espaços. Grande abraço a você, seja Bem-vindo.

"Quem é que após estar diante da presença arrebatadora da pintura de um Edward Munch, de um Francis Bacon (participantes anos atrás da Bienal de São Paulo na seção “histórica”), quem é que num momento desse não percorreu a Bienal com tremendo desgosto pelo que era ali exposto como o melhor da criação “contemporânea” (arte é contemporânea? Goya e Rembrandt são apenas o passado, ou o presente e o futuro também?). Não seria, pensamos, uma covardia expor esses gigantes diante das míseras expressões artísticas contemporâneas? Aliás, a curadora da próxima Bienal de São Paulo já se encarregou de desfazer essa humilhação, retirando o “núcleo histórico” da próxima exposição.

Segundo Sant'Anna “a melhor homenagem que podemos fazer aos mestres contestadores de ontem é contestá-los hoje. Não para que a arte volte ao passado, mas para que ela se possibilite um futuro”.

Por isso, “é preciso estar maduro para o passado”, vaticina Sant'Anna. Se não... que futuro teremos?"

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Luis Alfredo disse...

Tais,
Agradeço pela sua sensibilidade em ir atrás e postar o resto do artigo do Augusto de Campos. O que me impediu foi o limite de palavras imposto pelo Blogger (4 mil e tantas). O meu Blog de que vc, fala está estacionado há meses. Ele nasceu pela minha investigação dos 2 quadros de Botticelli - Primavera e o Nascimemto de Venus. No primeiro é obvio que o artista está retratando Venus, e não a Virgem. No segundo ele despe a virgem para fazer nascer Venus. Meus argumentos são plausíveis, mas o blog não deu Ibope. Botticelli era um gozador. Deve ter rido muito de quase 5 séculos de críticos de Arte. Tenho a certeza de que ele sorriu, lá de onde todos sabemos, das minhas deduções. Os blogs de minha autoria que eu mais atualizo são: Ditos Bem Ditos e Botecos do Leblon.
Mas... que prazer enorme passear pela seu museu e biblioteca.
Parabéns

SAYONARA disse...

Ola Tais, conheci seu blog recentemente e adorei, parabens pelo seu comentario sobre o que e arte, concordo com vc, durante muito tempo questionei a minha sensibilidade diante de algumas ditas obras de arte, ate que vi um filme chamado mestre da vida. Um grande abraco, Sayonara