29 de abril de 2012

PINTURA RENASCENTISTA

Primavera -1482 / Botticelli - mostra ritmo, vitalidade e leveza
Tais Luso de Carvalho


Na antiguidade a pintura era vista como um ofício, o que era comum em todas as artes. Os mestres pintores recebiam encomendas importantes e tinham de executar quadros num tempo limitado, com conteúdos pré-definidos e destinados a um fim pré-determinado. Mas, há cerca de 700 anos os pintores começaram a lutar pela liberdade criativa,   a  lhes emprestar um conteúdo que não se limitasse ao motivo principal, apenas.

Na Renascença, a pintura é enriquecida de novo processo técnico – o processo a óleo, mais prático do que os processos conhecidos dos afrescos, têmpera e encáustica. O homem desta época já é um homem moderno, de espírito racionalista e mentalidade científica. Enquanto a ciência da Idade Média era a Teologia, isso é, o estudo e o conhecimento de Deus, a ciência da Renascença era o Humanismo, o estudo e o conhecimento do homem. Esta visão encontra-se documentada pela primeira vez na pintura de Giotto di Bondone.

A pintura renascentista caracteriza-se pela aplicação de leis matemáticas e princípios geométricos na composição; vemos isso na 'Ceia' de Leonardo e na 'Transfiguração' de Rafael. Pelo realismo visual e pelo reaparecimento da representação do espaço e do volume, através da perspectiva científica e o claro-escuro, ignorados desde a antiguidade.

Embora representando temas religiosos a pintura renascentista não é mística, simbólica nem deformadora, mas realista e de inspiração realista e profana. As teorias artísticas renascentistas fundaram-se no conhecimento e estudo das obras da antiguidade clássica greco-romana que na época começaram a ser descobertas e admiradas pela iniciativa de príncipes e papas protetores das artes.

O espírito do humanismo, a atenção e o interesse que começava a manifestar no povo, também se fez sentir no aparecimento de um novo gênero: 'o retrato'. Os pintores renascentistas começaram por se concentrar na possibilidade de individualização: ou seja, do rosto. Os pormenores eram registrados fielmente. A utilização mais usada, a princípio, era o perfil, pois partia-se do princípio que era a forma que oferecia menos possibilidades de variar e atenuar, podendo corresponder à maior exatidão. Assim foram os primeiros retratos renascentistas, muito parecidos com as moedas e medalhas antigas, que os artistas da época estudavam exaustivamente.

Masaccio foi o primeiro pintor a reconhecer o que a descoberta da perspectiva significava para a pintura. Em 1427, executou na igreja Santa Maria Novella, um fresco da Santíssima Trindade que chocou os fiéis. A ilusão de espaço que parecia real contrariava totalmente os hábitos visuais vigentes até então. Os fiéis pensavam que o pintor tinha feito um buraco na parede que mostrava uma capela vizinha.

Piero della Francesca, também foi um dos primeiros pintores do Renascimento italiano a reconhecer o poder harmonizante da luz e a sua importância para os fenômenos materiais e da cor.
Com a Flagelação de Jesus Cristo mostra que a ação principal se desenrola num salão com colunas ao fundo do quadro, enquanto que em primeiro plano se vê um grupo de homens.

Sandro Botticelli mostra que sua pintura deixa de ser estática, ganhando movimento de uma forma nunca vista. Nascimento de Vênus, representa um tema mitológico, nascida da espuma das ondas – deusa da beleza e do amor -, ergue-se de uma concha (símbolo da fertilidade), conduzida pelos deuses do vento sobre o mar movimentado até a margem onde é envolta num manto vermelho por Flora, deusa das flores. Os cabelos esvoaçantes e os trajes dão uma leveza agitada ao quadro.

Andrea Mantegna, com 'A Deposição de Cristo', é igualmente a prova como os pintores do Renascimento contribuíram para esse desenvolvimento alucinante que só levou um século, elevando-se em voos artísticos cada vez mais audazes. O que é fascinante nessa obra é a inserção do observador na composição. Mostra um Cristo dramático, escorço. O corpo parece alongar-se para dentro do espaço.

Leonardo Da Vinci é o protótipo do homem criativo renascentista, o homem universal. Não só foi o inovador da pintura, como também possuía vasto conhecimento relativamente a todos os campos das ciências da época, assim como da técnica e da arquitetura. As suas obras influenciaram muitos artistas através dos séculos. Cito sua Mona Lisa – pequeno quadro, 77 x 53 cm, pintado em 1503.

Miguel Ângelo Buonarroti é o espírito que aperfeiçoou o Renascimento e cuja obra mostra a grandeza e o drama da época como em nenhum outro artista. Seus trabalhos de pintura, escultura e arquitetura constituem uma unidade cuja figura central é o ser humano criador, a sua força e o seu sofrimento. Para Miguel Ângelo a criação artística era uma espécie de religião universal, um instrumento para a percepção do homem como ser e do mundo que o envolve. Cito 'A Criação de Adão' , Capela Sistina / 1508.

Ticiano, em 'A Vênus de Urbino' mostra o contraste com o fundo escuro. Os traços individualizados da modelo, representação viva do corpo na pintura de tons quentes, reveste a obra de um caráter extremamente íntimo.



Antonio Del Pollaiuolo / séc 15 - perfil
Santíssima Trindade / Masaccio - 1427
 Federico Montefeltro / Sandro Botticelli
A Transfiguração / Rafael Sanzio

de Giovanni Bellini  
Retrato 'O Doge Leonardo Loredan' - 1505

Ticiano / Vênus de Urbino - 1538


O RENASCIMENTO / 1ª PARTE

Referências: História da Pintura / ed. Hönemann
Renascença / História Universal - ed. José Olympio
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18 comentários:

Antonio Machado disse...

Boa noite Taís,
o resumo de um período tão rico e diversificado em suas manifestações artísticas e tecnológicas é uma tarefa difícil e você, como sempre, se saiu muito bem! Bela contribuição para o enriquecimento cultural de nossa blogosfera.
Um bom feriadão, beijos de todos os seus fãs do atelier

Tais Luso disse...

Olá, ANTONIO, é tarefa dura resumir, sim! Mas não acabei aqui, ainda tem muito pela frente sobre o Renascimento. Vou escrevendo por partes.

Obrigado, amigo, sempre ótimo recebê-lo aqui. Você faz a diferença.
BJS ao atelier, também!

Elenir disse...

Olá Tais!
Acabo de conhecer seu espaço e pude fazer um belo passeio por aqui. Adorei.
Senti falta do pintor brasileiro Ismael Nery.
Abraços

Linda Lourenço disse...

Boa Noite Tais,
As pinturas renascentistas São belíssimas ,viajei no tempo graça a si.
Um resumo cativante e enriquecedor!
Igualmente uma bela homenagem porque
Realmente hoje com toda a tecnologia que está a nossa alcança..Lembro me que em aulas de historia da arte e as horas que eu tive com as minhas colegas achei que foram poucos..Talvez porque gostava muito :)Então não vou faltar aos próximos resumos!

Obrigada Tais, beijo e abraço

Linda

Amapola disse...

Boa noite, querida amiga Tais.

Para um artista, imagino o desconforto de ter tema definido e tempo para entrega, como se fosse um serviço industrial.

Mesmo sem a liberdade de criação, eis belíssimas obras!

Beijos.

artebaiao disse...

Taís, cara. É sempre muito bom te reler.
Um bom abraço.

Vanuza Pantaleão disse...

Quem sabe, sabe...
Você, minha amiga, sabe dividir conosco esse universo renascentista com perfeição absoluta. Grata pela partilha.
Amei, amei!

Maria disse...

Amiga Taís aqui, respira-se cultura, excelente post, adorei!
Bom fim de semana
Beijinhos
Maria

Graça Pereira disse...

Gosto da pintura Renascentista.
O quadro da primavera de Botticelli é uma manifestação de cor e vida.~Também gosto da Transfiguração de Rafael Sanzio.
Já tinha saudades destas aulas de Arte.
Depois de uma pausa...voltei à estrada.
Beijo e uma boa semana.
Graça

Hana disse...

Um banho de riqueza de harmonia com a arte, um alimento impar para alma!
Absorvi tudo, pois a arte me fascina, e seu olhar, seu prisma para relatar é tão carismático, que me sinto em sua sala, tomando um chá falando sobre cada estilo!! vc é show!!
Um mar de beijossssssss!
Com carinho
Hana

magda disse...

My dear friend Tais
Thanks for the wonderful presentation and the knowledge they give us!
This season was the eminent painter!
Many greetings and kisses

Maria Rodrigues disse...

Amiga Taís brilhante post, como todos os que tão excelentemente faz.
Minha amiga um Feliz Dia da Mãe.
“Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães.” (Ditado judaico)
Beijinhos
Maria

Manuel Luis disse...

Difícil este trabalho, com dedicação e vontade consegue-se.
Abraço

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Diante de tanta beleza,
como encontrar
palavras
para o que precisa
ser descrito
com o olhar...


Que sempre haja amor,
para alimentar de sentidos
sua vida.

irene alves disse...

Minha amiga não esqueci os seus
blogues.É sempre um imenso gosto
estar aqui.
Desejo que esteja bem.
Beijinhos
Irene Alves

Manuel Luis disse...

O renascimento não acaba aqui nem a primavera de cores.
Bj

Sueli Gallacci disse...

Taís, excelente matéria sobre a pintura renascentista. Rica em detalhes importantíssimos para entendermos como tudo se desenrolou ao longo dos séculos até a evolução da arte pictórica dos nossos dias. Hoje, olhando para o passado avaliamos como tudo chegou mastigadinho para nós, os artistas da modernidade.

Algumas vezes já ouvi pessoas dizerem em museu de artes “mas, que pintura feia! Isso eu também faço”. Não sabem do poucos recursos que eles tinham naquela época, e do parco conhecimento das inúmeras facetas da cor e a influencia da luz sobre ela.

Quando penso que Da Vince fazia pleno uso do Retângulo de Ouro já naquela época, mais evidente na Santa Ceia, fico emocionada... De fato tudo que sabemos hoje devemos a esses artistas do passado que estudavam incessantemente, fazendo experimentos rudimentares com matérias primas, arriscando suas próprias vidas com contaminação por matais pesados, como o chumbo, por exemplo.

Adorei essa postagem por ser exata, clara e objetiva. Aplausos pra vc sempre!

Bjo grande.

Robert Manz disse...

This is so clear and well written that I could understand without translation. My favorite time of rebirth, when we started to wake from a bad dream. Best wishes! Robert