'O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.'
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| Fantasmagoria / 1987 |
Um dos grandes artistas do séc. XX, com uma obra extensa, gravuras, desenho, guaches e pintura a óleo, sua obra 'Carretéis', 'Ciclistas' e 'Idiotas' são de suas fazes mais conhecidas e comentadas. Iberê sempre exerceu forte liderança no meio artístico e intelectual. Suas obras foram reverenciadas nas Bienais de Tóquio, Madri, São Paulo, Veneza assim como participou, também, de inúmeras exposições no Brasil, França, Inglaterra, Estados Unidos, Escócia, Espanha e Itália. Seu acervo é composto por mais de 7000 obras - grande parte na Fundação Iberê Camargo.
O artista nasceu no ano de 1914, em Restinga Seca, distrito de Santa Maria/RS.
Em 1942 recebeu do Governo do Estado uma bolsa para estudar no Rio de Janeiro, e partiu com Maria, sua esposa. Não cursou todo o Belas Artes por discordar de sua orientação acadêmica.
Integra-se, na época, ao Grupo Guignard onde expõe pela primeira vez sua 'individual' em Porto Alegre. Após ter conquistado um prêmio resolveu ir para Europa estudar com André Lothe e De Chirico. Voltou ao Brasil, e não se filiou a nenhuma escola, mantendo-se independente.
Isolado, num ateliê no Edifício Róseo, e depois na Lapa, Iberê dilacerou-se para escapar das influências poderosas de Portinari, Segall e Utrillo, esta a mais marcante e duradoura.
Aproximadamente em 1958, uma hérnia de disco provocada pela suspensão de um quadro no cavalete, obrigou-o a trabalhar quase que exclusivamente no ateliê. Seja por esta razão ou por motivos inconscientes, seus quadros começaram pouco a pouco a mergulhar na sombra. O céu das paisagens tornou-se azul-escuro, negro, dando ao quadro um conteúdo de drama. Surgem, então, os carretéis sobre a mesa, depois no espaço. Os carretéis são reminiscências da infância.
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| O Ciclista / 1990 clique foto |
Retratos, paisagens, naturezas-mortas, carretéis, explosões abstratas, tudo feito com paixão emergindo de uma força estranha. Tudo expressava um momento, muito longe da inércia.
Em 1980, num incidente em uma das ruas do Rio de Janeiro, o artista matou um homem. O caso teve enorme repercussão. Esse episódio deixou Iberê extremamente abalado fazendo com que o artista retornasse ao figurativismo. Iberê volta para Porto Alegre em 1982, abrindo seu atelier na rua Lopo Gonçalves. Continua a produzir muito, em 1986 abre seu atelier no bairro Nonoai, e lança o livro 'No andar do tempo' – 9 contos e um esboço autobiográfico.
Sua obra torna-se trágica, com figuras esquálidas, onde pode-se ver incutido no artista, a tragédia: mais solidão e sofrimento. Sua vida foi, praticamente, transportada para as telas, tanto em suas fases tumultuadas como nas mais calmas. Suas pinceladas deixaram uma história rica na trajetória das artes.
Todo o artista deixa sua vida nas telas brancas e frias; acabada a obra, tudo vira história, emoção, beleza e riqueza de detalhes. Mas, marcado por tragédias pessoais, a obra de Iberê mostra pinceladas dramáticas e amargas nos últimos anos de sua vida.
A série dos Carretéis surge por volta de 1959. Produz apenas no seu ateliê e passa a retomar temas ligados à sua infância. Ciclistas – 1984 - trazem um jogo entre o passado e o presente, usando a bicicleta como analogia do tempo. E Idiotas vem no início dos anos de 1990, quando a política do Brasil estava aos frangalhos.
Anos depois, bem mais adiante, veio a contrair um câncer de pulmão, levando-o a inúmeras sessões de radioterapia. E essa dramaticidade, de sua luta contra a doença ficou registrada em seus últimos trabalhos. Morre em 1994
De Iberê...
- As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias de minha infância, guri criado na solidão da campanha do Rio Grande do Sul.
- Não há um ideal de beleza, mas o ideal de uma verdade pungente e sofrida que é a minha vida, é tua vida, é nossa vida, nesse caminhar no mundo.
- Sou impiedoso e crítico com minha obra. Não há espaço para alegria.'
- Acho que toda grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.
- A vida dói... Para mim, o tempo de fazer perguntas passou.
- A vida dói... Para mim, o tempo de fazer perguntas passou.
- O auto-retrato do pintor é pergunta que ele se faz a si mesmo, e a resposta também é interrogação.
- A verdade da obra de arte é a expressão que ela nos transmite. Nada mais do que isso!
Minha contestação é feita de renúncia, de não-participação, de não-conivência, de não-alinhamento com o que não considero ético e justo. Sou como aqueles que, desarmados, deitam-se no meio da rua para impedir a passagem dos carros da morte. Esta forma de resistência, se praticada por todos, se constituiria em uma força irresistível. O drama trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo.
Não faço mortalha colorida. Por que sou assim?
Porque todo homem tem um dever social, um compromisso com o próximo.
Alvaro Siza, projetou a Fundação com a obsessão ‘siziana’: desde os parafusos sextavados em aço inoxidável, figuras de sinalização das portas dos banheiros e saídas de emergência, porta-lápis, cabideiros e lixeiras do setor administrativo como, também, de todo o mobiliário. Como se vê, tudo nos mínimos detalhes.
O arquiteto português é um dos cinco arquitetos contemporâneos mais importantes do mundo. O prédio tem salas expositivas, átrio, reserva técnica, centro de documentação e pesquisa, Ateliê de Gravura, Ateliê do Programa Educativo, auditório, loja, cafeteria, estacionamento e parque ambiental projetado pela Fundação Gaia.
Com 9,5 mil metros de área construída, prédio de curvas suaves, mas impactantes, construído num terreno doado pelo Estado, parceria público-privado.
No fundo do terreno foi preservado o paredão de rocha coberto por uma vegetação nativa. O aparelho de ar-condicionado funciona reciclando a própria energia que produz; a água que abastece os vasos sanitários vem da chuva, e sai já tratada.
A iluminação artificial reproduz o mesmo tom da clarabóia; camadas de lã de rocha isolam os ruídos externos e o mormaço do verão de Porto Alegre; um fosso, inacessível ao olhar dos visitantes, contorna todo o prédio de maneira que, se o Guaíba transbordasse, haveria enorme espaço a preencher até chegar ao estacionamento. Tudo perfeito para acolher parte das 7 mil obras produzidas pelo artista, as quais estão protegidas por um sofisticado sistema de segurança.
O arquiteto português é um dos cinco arquitetos contemporâneos mais importantes do mundo. O prédio tem salas expositivas, átrio, reserva técnica, centro de documentação e pesquisa, Ateliê de Gravura, Ateliê do Programa Educativo, auditório, loja, cafeteria, estacionamento e parque ambiental projetado pela Fundação Gaia.
A iluminação artificial reproduz o mesmo tom da clarabóia; camadas de lã de rocha isolam os ruídos externos e o mormaço do verão de Porto Alegre; um fosso, inacessível ao olhar dos visitantes, contorna todo o prédio de maneira que, se o Guaíba transbordasse, haveria enorme espaço a preencher até chegar ao estacionamento. Tudo perfeito para acolher parte das 7 mil obras produzidas pelo artista, as quais estão protegidas por um sofisticado sistema de segurança.












21 comentários:
Tais Luso
A a beleza da arte está na visão de que tem a felicidade de a ver, como agora me aconteceu.
Desconhecia totalmente o grande pintor, Iberé Camargo. A visão da fotos e a leitura do precioso texto foi importante para o gosto pela arte.
Importante também o traço de Sisa Víeira, por meio da idealização do Museu, ficar associado ao nome do grande pintor.
Beijos
Taís!
Maravilha vc trazer esse importante artista do século XX!
Lendo sua biografia fico me perguntando o que se passa na ‘natureza’ de certos artistas. São gênios da pintura, mas na vida pessoal, deixam um registro conturbado, uma insatisfação constante...
Veja o caso do Iberê, artista talentosíssimo, mas como pessoa era um tanto amargo, controvertido, criatura estranha rsrs. Não gostava de cachorros e nem de crianças, mas posteriormente ‘se apaixona’ por um gato que até mesmo faz as refeições à mesa junto com ele e a esposa rsrs.
Suas pinturas refletem sua natureza solitária, seus traçados um tanto agressivos como se ele quisesse mostrar que rejeitava esse mundo de tantas injustiças.
Quando vi pela primeira vez as obras de Iberê, a sensação que tive era que ele transformava o ‘belo’ que seus olhos captavam em ‘feio’, propositadamente, numa mensagem de revolta, talvez... sei lá.
Sobre as camadas grossas de cores que ele sobrepunha sobre um fundo negro, ele declarou que nada era planejado com antecedência, tudo se resolvia no momento pictórico pela busca da cor ou o tom exato.
Gosto de várias de suas obras, mas uma delas me é especial: 'Colisão'. Ele consegue com poucas pinceladas vigorosas retratar dois automóveis colididos (amassados), até parece um flagrante do momento da colisão. Fantástico!
Parabéns, amiga, magnífica postagem!
Bjosbjos procê!!!
Iberê Camargo é um dos poucos artistas modernos brasileiros que se pode sonsiderar uma unamidade, com sua pintura triste e melancólica. A pintura de IC possui uma densidade e uma corporeidade que criam um ambiente pastoso, onde suas figuras parecem lutar para se constituir.
Beijos.
Tais..obrigada pela aula!!
Vc me fez conhecer um pouco mais deste grande pintor!!
Me fez lembrar Frida Khalo!
Um beijo..saudades!
Ma
Buen trabajo, un grato placer pasar por tu casa.
que tengas un feliz fin de semana.
un abrazo.
My dear friend Tais
He is this unknown artist, for my.
I was shocking of his work!!!
How hurt ...
This is reflected in his works.
Many greetings and good summer!
TRADUZINDO MAGDA:
Minha querida amiga Tais
Ele é artista desconhecido para mim.
Eu estou chocada com seu trabalho!
Como machuca...
Isso se reflete em suas obras.
Muitas saudações e bom verão!
Ele é dos grandes e pena o que aconteceu que retirou do cenário e o entristeceu tanto.
beijos
Taís!
Pela primeira vez, li bastante sobre esse artista maravilhoso. Parabéns pelo post tão completo e esclarecedor, minha linda!
Beijos meus!
Sempre venho aqui, adoro arte, mas também para não esquecer de que não vivemos só de Van Gogh e Munch, Picasso ou Da Vince.
Um abraço, Taís.
Morei no RJ de 70 a 95 e lembro-me em quando Îberê, de certa forma, foi a maior "vítima" de uma fatalidade. Vez por outra, lia notícias sobre, como aquele acidente repercutiu em sua trágica vida e, mais ainda em sua bela arte. Seus quadros, que já me impressionava, passaram a impressionar mais ainda.
Belíssima postagem, Tais.
Só hoje, passei a seguir Das Artes.
Lí algumas postagens anteriores.
BRAVO!
Beijos
Boa tarde, Tais!
A Obra de Iberê sempre me transmitia essa dor, essa coisa da alma torturada. Realmente, uma vida marcada pela tragédia, mesmo assim, válida.
Uma postagem e tanto! Adorei!
Parabéns e beijos!!!
Amiga um post absolutamente excelente!
Beijinhos
Maria
Tais,que maravilhosa viagem nessas telas e no seu texto perfeito e tão esclarecedor!Um artista para ser mesmo imortalizado por suas belas obras!Bjs,
Taís, o que posso dizer a não ser - BELO!!!!
Sim, toda e qualquer obra de ARTE sai primeiro de dentro do ARTISTA, daquilo que ele tem de mais sagrado que é seu sentir e somente ele sabe que a única forma de expressar-se verdadeiramente será através da sua criação, seja ela na pintura, na escrita, no canto... Assim é todo criador... todo mestre na ARTE.
Abraços
Tão próximo e eu desconhecia este pintor brasileiro do sec. XX.
As suas telas vivenciam a sua vida dolorosa num traço negro da sua infelicidade. " O drama trago-o na alma" e esse mesmo drama acompanhou toda a sua obra: "Não faço mortalhas coloridas".
Siza Vieira foi o arquitecto bem escolhido para construir o seu Museu, ele que é o arquitecto dos detalhes...
Mais uma vez, aprendendo por aqui!
Beijo e bom fds.
Graça
Querida amiga Taís, grande beleza de obra artistica e conhecimento profundo da matéria. Desconhecia a arte do pintor Iberé Camargo.O seu artigo é uma verdadeira aula sobre arte.Já sobre Sisa Vieira, conheço muita coisa.No norte de Portugal, o traço dele está em quase todas as cidades.
Obrigada por mais esta bela lição.
Bjito e uma flor.
No DANIEL MILAGRE, Está um selo comemorativo de 50.000 visitas. Todos os amigos o podem linkar.
O blog ENCONTROS LUSO ~ BRASILEIROS DE POESIA, deu lugar a POEMAS DA LUSOFONIA PORTUGAL - BRASIL, onde também o selo foi postado na banda.
Beijos
Oi, moro muito perto do museu,mas confesso não gostar da arte dele,com certeza merece o reconhecimento,afinal todos não podem pensar igual, valeu a pena para quem não conhecia.
Ola querida amiga
Estou na final da ostra poesia, me desculpe por mais uma vez vir lhe pedir votinho para a minha poesia, Precisamos. Mas sem a sua ajuda eu não irei conseguir. Prometo que passando esta fase eu virei comentar apenas sobre o conteúdo de seu cantinho.
Como votar você entra no link …http://ostra-da-poesia-as-perolas.blogspot.com/
No final paginas das poesias esta escrito
VOTE CLICANDO NA PALAVRA COMENTÁRIOS Lindalva 1 comentários
Por favor coloque coloque o nome da autora e da poesia, ( Precisamos ... Maria Alice Cerqueira e o nome do seu blog. para que Lindalva possa confirmar seu voto.
Desde já lhe agradeço de coração.
Tudo do melhor para você.
Abraço amigo
Maria Alice
My dear friend Tais, hi
I wish you a happy summer,why am away from the Internet, until September.
Sorry about that.
Many greetings and kisses
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