22 de junho de 2011

IBERÊ CAMARGO 1914 / 1994

No Vento e na Terra - 1991


'O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.'

Eu com Fantasmagoria - na Fundação Iberê Camargo

Fantasmagoria / 1987

Um dos grandes artistas do séc. XX, com uma obra extensa, gravuras, desenho, guaches e pintura a óleo, sua obra 'Carretéis', 'Ciclistas' e 'Idiotas' são de suas fazes mais conhecidas e comentadas. Iberê sempre exerceu forte liderança no meio artístico e intelectual. Suas obras foram reverenciadas nas Bienais de Tóquio, Madri, São Paulo, Veneza assim como participou, também, de inúmeras exposições no Brasil, França, Inglaterra, Estados Unidos, Escócia, Espanha e Itália. Seu acervo é composto por mais de 7000 obras - grande parte na Fundação Iberê Camargo.

O artista nasceu no ano de 1914, em Restinga Seca, distrito de Santa Maria/RS.
Em 1942 recebeu do Governo do Estado uma bolsa para estudar no Rio de Janeiro, e partiu com Maria, sua esposa. Não cursou todo o Belas Artes por discordar de sua orientação acadêmica.
Integra-se, na época, ao Grupo Guignard onde expõe pela primeira vez sua 'individual' em Porto Alegre. Após ter conquistado um prêmio resolveu ir para Europa estudar com André Lothe e De Chirico. Voltou ao Brasil, e não se filiou a nenhuma escola, mantendo-se independente.

Isolado, num ateliê no Edifício Róseo, e depois na Lapa, Iberê dilacerou-se para escapar das influências poderosas de Portinari, Segall e Utrillo, esta a mais marcante e duradoura.

Aproximadamente em 1958, uma hérnia de disco provocada pela suspensão de um quadro no cavalete, obrigou-o a trabalhar quase que exclusivamente no ateliê. Seja por esta razão ou por motivos inconscientes, seus quadros começaram pouco a pouco a mergulhar na sombra. O céu das paisagens tornou-se azul-escuro, negro, dando ao quadro um conteúdo de drama. Surgem, então, os carretéis sobre a mesa, depois no espaço. Os carretéis são reminiscências da infância.

O Grito - 1984


O Ciclista - 1990

Retratos, paisagens, naturezas-mortas, carretéis, explosões abstratas, tudo feito com paixão emergindo de uma força estranha. Tudo expressava um momento, muito longe da inércia.

Em 1980, num incidente em uma das ruas do Rio de Janeiro, o artista matou um homem. O caso teve enorme repercussão. Esse episódio deixou Iberê extremamente abalado fazendo com que o artista retornasse ao figurativismo. Iberê volta para Porto Alegre em 1982, abrindo seu atelier na rua Lopo Gonçalves. Continua a produzir muito, em 1986 abre seu atelier no bairro Nonoai, e lança o livro 'No andar do tempo' – 9 contos e um esboço autobiográfico.

Sua obra torna-se trágica, com figuras esquálidas, onde pode-se ver incutido no artista, a tragédia: mais solidão e sofrimento. Sua vida foi, praticamente, transportada para as telas, tanto em suas fases tumultuadas como nas mais calmas. Suas pinceladas deixaram uma história rica na trajetória das artes.
Todo o artista deixa sua vida nas telas brancas e frias; acabada a obra, tudo vira história, emoção, beleza e riqueza de detalhes. Mas, marcado por tragédias pessoais, a obra de Iberê mostra pinceladas dramáticas e amargas nos últimos anos de sua vida.

A série dos Carretéis surge por volta de 1959. Produz apenas no seu ateliê e passa a retomar temas ligados à sua infância. Ciclistas – 1984 - trazem um jogo entre o passado e o presente, usando a bicicleta como analogia do tempo. E Idiotas vem no início dos anos de 1990, quando a política do Brasil estava aos frangalhos.

Carretéis / 1958

Anos depois, bem mais adiante, veio a contrair um câncer de pulmão, levando-o a inúmeras sessões de radioterapia. E essa dramaticidade, de sua luta contra a doença ficou registrada em seus últimos trabalhos. Morre em 1994

A Idiota / 1991

De Iberê...

- As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos   dias de minha infância, guri criado na solidão da campanha do Rio Grande do Sul.


- Não há um ideal de beleza, mas o ideal de uma verdade pungente e sofrida que é a minha vida, é tua vida, é nossa vida, nesse caminhar no mundo.

- Sou impiedoso e crítico com minha obra. Não há espaço para alegria.'

- Acho que toda grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.


- A vida dói... Para mim, o tempo de fazer perguntas passou.

- O auto-retrato do pintor é pergunta que ele se faz a si mesmo, e a resposta também é interrogação.

- A verdade da obra de arte é a expressão que ela nos transmite. Nada mais do que isso!


Solidão / 1994

Minha contestação é feita de renúncia, de não-participação, de não-conivência, de não-alinhamento com o que não considero ético e justo. Sou como aqueles que, desarmados, deitam-se no meio da rua para impedir a passagem dos carros da morte. Esta forma de resistência, se praticada por todos, se constituiria em uma força irresistível. O drama trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. 
Não faço mortalha colorida. Por que sou assim?

Porque todo homem tem um dever social, um compromisso com o próximo. 





Crepúsculo da Boca do Monte - 1991

Desdobramento II - 1972


Sobre a Fundação Iberê Camargo:
Fundação Iberê Camargo / Porto Alegre, Brasil




(Homenagem) Os Carretéis - defronte à Fundação

Iberê e Maria / 54 anos casados. 
Após o falecimento do artista, Maria ficou à frente da Fundação. 
Veio a falecer aos 96 anos.


Alvaro Siza, projetou a Fundação com a obsessão ‘siziana’: desde os parafusos sextavados em aço inoxidável, figuras de sinalização das portas dos banheiros e saídas de emergência, porta-lápis, cabideiros e lixeiras do setor administrativo como, também, de todo o mobiliário. Como se vê, tudo nos mínimos detalhes.


O arquiteto português é um dos cinco arquitetos contemporâneos mais importantes do mundo. O prédio tem salas expositivas, átrio, reserva técnica, centro de documentação e pesquisa, Ateliê de Gravura, Ateliê do Programa Educativo, auditório, loja, cafeteria, estacionamento e parque ambiental projetado pela Fundação Gaia.

Com 9,5 mil metros de área construída, prédio de curvas suaves, mas impactantes, construído num terreno doado pelo Estado, parceria público-privado. 

No fundo do terreno foi preservado o paredão de rocha coberto por uma vegetação nativa. O aparelho de ar-condicionado funciona reciclando a própria energia que produz; a água que abastece os vasos sanitários vem da chuva, e sai já tratada. 


A iluminação artificial reproduz o mesmo tom da clarabóia; camadas de lã de rocha isolam os ruídos externos e o mormaço do verão de Porto Alegre; um fosso, inacessível ao olhar dos visitantes, contorna todo o prédio de maneira que, se o Guaíba transbordasse, haveria enorme espaço a preencher até chegar ao estacionamento. Tudo perfeito para acolher parte das 7 mil obras produzidas pelo artista, as quais estão protegidas por um sofisticado sistema de segurança.