30 de novembro de 2011

ENTENDENDO SALVADOR DALÍ


Salvador Dalí pintou suas obras mais famosas na década de 1929 / 1939, usando um 'método crítico paranóico' que ele mesmo imaginou. Este método envolvia várias formas de associações irracionais, notadamente imagens que variam conforme a percepção do observador. Uma característica distinta de Dalí é que, apesar das imagens serem fantásticas elas eram sempre pintadas com uma técnica acadêmica, impecável e precisão fotográfica que a maioria dos artistas de vanguarda contemporâneos considerava fora de moda.


A FACE DA GUERRA
1940



Esta obra foi pintada nos Estados Unidos onde Dalí viveu por oito anos e onde lá alcançou o auge de sua fama e sucesso mundial.
O significado da pintura foi para Dalí extraordinariamente franco e honesto, empregando o simbolismo em vez de associações irracionais do 'método crítico paranóico'. Uma cabeça parecendo uma caveira rodeada de longas e sibilantes serpentes, tem todos os orifícios repletos de esqueletos; cada um contém esqueletos-dentro-de-esqueletos, de forma que a cabeça está recheada de morte infinita, um símbolo potente da era dos Campos de Concentração e assassinatos em massa.


A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA
1931



Este quadro tão pequeno (24x33 cm) é provavelmente a obra mais conhecida de Dali. A flacidez dos relógios dependurados e escorregando é um conceito brilhante, mais eficaz para abalar a nossa crença em uma ordem natural das coisas, presa à regras estabelecidas, do que muitas deformações mais sensacionalistas. As imagens chegam ao inconsciente evocando a preocupação humana, aparentemente universal, com o tempo e a memória.

O próprio Dali está presente na forma da cabeça adormecida que já havia aparecido em O Jogo lúgubre e outros quadros. Caracteristicamente ele alegou que a ideia para o quadro lhe ocorreu enquanto meditava sobre a natureza do queijo Camenbert. O fundo do Port Lligat já estava pintado, portando foram necessárias apenas umas duas horas para terminar a pintura.

O GRANDE PARANÓICO
1936



Uma das imagens duplas mais surpreendentes de Dalí, foi pintada depois de uma discussão do artista com um colega, José Maria Sert, sobre o trabalho do famoso pintor milanês do século 16, Giuseppe Arcimboldi, famoso por seus retratos cujos temas eram compostos totalmente de objetos relacionados (frutas, por ex. ou armas). No mesmo estilo, mas com resultados mais dinâmicos o Paranóico Sorridente de Dalí se dissolve em uma cena turbulenta em que homens e mulheres assumem atitudes de tristeza ou desânimo.

À direita, contrastando, um grupo de figuras exaustas parece estar tentando arrastar um barco sobre a areia, talvez representando um delírio que fervilha na mente do Grande Paranóico.

SONO
1937



Dalí recriou o tipo de cabeça grande e mole e o corpo inexistente que aparecia com tanta frequência nos seus quadros por volta de 1929. Sono e sonhos são, por excelência, o domínio do inconsciente e portanto de especial interesse para a psicanalistas e surrealistas.

A personificação do sono, está adequadamente perturbado e é necessariamente uma quantidade extraordinária de muletas para apoiar a cabeça e posicionar exatamente cada um dos traços. Muletas sempre foram a marca registrada de Dalí, sugerindo a fragilidade das escoras em que a realidade se apoia, mas aqui nada parece estável e até o cachorro precisa ser sustentado. Tudo, nesse quadro, exceto a cabeça está banhado por uma luz pálida azulada, completamente a ideia de alienação do mundo, da luz e da racionalidade.

IMPRESSÃO DA ÁFRICA
1938



Este quadro é notável pelo auto-retrato de Dalí diante de seu cavalete, olhando fixo, num esforço para convocar as imagens do seu inconsciente e transferi-las direto para a tela. Sua mão em 'escorço', estendida para o observador, lembra o pintor do séc.17 Caravaggio, um dos mestres italianos que Dalí estudou com tanto afinco no final da década de 1930.

Imagens duplas se acumulam ao fundo, inclusive sua mulher Gala e uma imagem de um padre que parece ter cabeça de macaco. O aspecto africano do trabalho pode ser avaliado com base na afirmação de Dalí de que a 'África tem algum significado no meu trabalho, porque sem nunca ter estado lá, lembro-me tão bem de tudo!'

CABEÇA AO ESTILO DE RAFAEL
1951



As formas fragmentadas que aparecem nesse quadro, origina-se do estudo da física nuclear por Dalí. Profundamente impressionado com as descobertas que levaram ao desenvolvimento da bomba atômica, ele abraçou a 'pintura nuclear' e o 'misticismo nuclear'.

A cabeça é como de uma Madona de Rafael, classicamente pura e serena. Ao mesmo tempo incorpora o interior do domo do Panteon em Roma, com a luz brilhando através dela. Ambas as imagens são perfeitamente claras, apesar da explosão que destruiu toda a estrutura em pequenos fragmentos na forma de chifres de rinocerontes.

CRISTO DE SAN JUAN DE LA CRUZ
1951



Um quadro famoso e popular embora tenha havido muitas controvérsias quando a Glasgow Gallery resolveu comprá-lo em 1952. Mostra a crucificação de uma maneira bastante inusitada, vista de cima, e, segundo Dalí, isto  fundia o seu próprio 'sonho cósmico', envolvendo uma esfera dentro de um triângulo (cabeça, braços e cruz formam um triângulo). 

A crucificação ocorre no alto das rochas, à beira mar, perto da casa de Dalí.


AUTO-RETRATO
1921



Este quadro foi pintado quando Dalí tinha 17 anos, embora tenha se retratado um pouco mais velho e estranhamente sério. O pescoço é ao estilo de Rafael. O ano de 1921 foi o da morte de sua mãe e o ano em que ele saiu de casa pela primeira vez para estudar na Academia de São Fernando, em Madri. Este retrato tem um ar sério e desafiante, um falso ar machista, para esconder, provavelmente, a extrema timidez de Dalí.

A técnica da pintura, embora perfeita, ainda não é a original, as pinceladas e o esquema de cores mostram a influência do Impressionismo, do Pontilhismo e de outros movimentos modernos que Dalí logo rejeitaria preferindo um estilo acadêmico, meticulosamente preciso.


MADONA DE 'Port Lligat'
1949



De volta à Espanha, em 1948, Dalí começou a pintar a Madona, terminando em 1950 – marcando o início de sua fase religiosa. Esta Madona foi abençoada pelo Papa Pio XII. A influência da arte renascentista sobre as obras de Dalí estava no seu auge. A fragmentação no seu quadro reflete o 'misticismo nuclear'.






Fonte: Vida e Obra de Dalí / Nathaniel Harris