3 de março de 2012

BOTERO E AS 'DORES DA COLÔMBIA'

El Desfile / 2000
- Tais Luso de Carvalho



É impactante a exposição de Fernando Botero 'As Dores da Colômbia' que visitei em Porto Alegre no Centro Cultural Erico Verissimo. Fernando Botero completará 8o anos em abril, um dos artistas - em atividade - mais prestigiados no mundo. Botero não é apenas o criador dos famosos, inconfundíveis e simpáticos gordinhos, representados nas suas pinturas, desenhos e esculturas; é mais; é um artista que se propôs a doar várias obras ao Museu Nacional da Colômbia para registrar as dores de seu país, dores que ninguém fica indiferente; a barbárie, a crueldade premeditada, a dor profunda do ser humano quando acossado e oprimido, quando é arrancada sua liberdade e seus direitos, sejam por guerrilhas, narcotráfico, manobras políticas ou pelos grupos paramilitares acontecidos na década de 1990.

'Não vou fazer negócio com a dor da Colômbia', declarou Botero ao anunciar, no ano de 2000, a sua decisão de doar esta coleção de obras ao Museu, Instituição que há muito tem sido objeto de sua generosidade. Com essa série de obras o artista não tem a pretensão de pôr fim ao conflito. O olhar do artista é compassivo e solidário, não almeja a mobilização, porque não acredita nela. Quer apenas chamar a atenção do mundo e 'dar seu testemunho' - como afirma.

'O material de sua triste leitura são massacres reais noticiados em todo o mundo. Aprisionamentos, corpos abatidos após o combate, lágrimas e sangue. O silêncio domina e o pesar é resignado. As cenas são como flagrantes individuais escolhidos em meio a uma tragédia que está por toda a parte e cuja extensão não é possível alcançar. Sobre suas vítimas Botero lança suas vibrantes cores, criando um contraditório e dramático material'. (Centro Cultural CEEE Erico Verissimo).

'Sou contra a arte como arma de combate. Mas em vista do drama que atinge a Colômbia senti a obrigação de deixar um registro sobre um momento irracional de nossa história'. (Botero)

Botero não tem a preocupação em pintar coisas especiais, mas de transformar a realidade em arte. E assim é. Estas obras expostas no Centro Cultural Erico Verissimo – que fica até 8 de março de 2012 -, mostram sob vários ângulos uma história impossível de ocultar e de esquecer. O mesmo se viu em obras de Goya (Desastres da Guerra) e Picasso (Guernica), o relato, para não esquecer do horror.

Apesar de Botero ter deixado sua terra natal há mais de 40 anos, mostra-se conectado ao seu país pintando não só seu lado agradável, mas também o que foi o lado terrível e violento. Cada quadro marca uma história, um lado peculiar e intimidador da violência que deságua na dor mais profunda do ser humano: perdas de filhos massacrados diante da mãe, esquartejamentos, fuzilamentos diante da família, atos no mais alto grau de violência e que a impiedade pode alcançar.

Esta exposição, que seguirá à outras cidades e países, é composta de 25 pinturas, 36 desenhos e 6 aquarelas. Todas as obras foram doadas em 2004 e 2005 e já percorreu cidades europeias e latino-americanas.

Esta exposição ficará em Porto Alegre até o dia 8 de março de 2012. Vale uma visita: além de vermos características plásticas próprias da obra de Botero, servirá para uma reflexão. E poder sentir, quem sabe, os horrores; a que ponto chegamos e o que somos capazes de fazer à nossa própria espécie.


Estes quadros são uma forma de repudiar a violência. (Botero)

Madre e hijo / 2000

Viva la Muerte / 2001

El Cazador / 1999

Matanza de los inocentes / 1999

El Masacre / 2000

Una Madre / 2001



Masacre en Colombia / 2000

Motosierra / 2004

Botero e as 'Dores da Colômbia'


Tais - junto ao painel da entrada
Mais sobre Botero e vídeo aqui, neste blog.


Fontes:
Algumas fotos e material  me foram enviadas, gentilmente, pelo  jornalista Paulo Camargo do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. Meus agradecimentos.
Fotos: Reprodução / divulgação do Museu Nacional da Colômbia
Patrocínios:
Grupo Bradesco Seguros
Aori Produções Culturais
Museu Nacional da Colômbia



15 comentários:

wallper.lima disse...

Ainda não havia visto esses quadros, onde Botero representa muito bem a dor, digo que serve para o momento de vida em que estamos vivendo, onde os valores estão se acabando, pessoas matando, a maldade imperando...enfim...nada tão justo expor tudo isso, talvez como "protesto"e um chamamento ao lado humano que todos nos temos, e que devemos deixar vir a tona, antes que tudo se acabe.
Adorei a postagem!
Bjos pra vc.
WaleriaLima

Fabio Baptista disse...

Os quadros são realmente impressionantes. O estilo de desenho e as cores que lembram um pouco desenhos infantis contrastam e destacam de modo aterrador a temática.

Legal também a postura do artista em não querer fazer dinheiro com esses quadros.


Taís, publiquei um conto no meu blog, chama-se "O Beijo Prometido". Se possível por favor leia e me dê sua opinião (desculpe te encher a paciência com os meus textos, mas eu realmente gosto quando você os comenta).
http://reflexoesdo719r.blogspot.com


Abraço.

Antonio Machado disse...

Olá Taís,
ótima exposição! Tomara que venha para o Rio... O texto, como sempre, muito bom, leve e enriquecedor.
Eu aindã não tinha visto essa fase do Botero. Muito boa!
Beijos do atelier

bondearte disse...

Ola Tais:
Em primeiro lugar quero agradecer por compartilhar conosco esta tua visita ao museu de Porto Alegre para ver as obras de Fernando Botero..
As tuas analises e comentários são muito bem elaborados.
Estas obras de Botero eu não conhecia,elas são contundentes.
O contraste das cores suaves e pacificas de Botero ganham força de denuncia e inconformismo perante a realidade cruel das imagens que ele registrou!
Como o proprio Botero disse ,o papel do artista não é o de arrigentar correligionarios para movimentos politicos ou ... etc...
porem o papel do artista é mostrar
para o espectador e a sociedade de forma geral aquilo que todos nós criamos ou contribuimos para que sejam criadas .
Desta forma temos que reverenciar e agradecer este incrivel artista Fernando Botero
Grande abraço
Bom domingo

Leninha disse...

Amiga Taís,

Estive revendo um filme que amo,Frida,agora mesmo e vim te fazer uma visita...deparo com a obra de Botero,obra esta que tem a mesma força e crueza da obra de Frida,ela a respeito de sua dor e ele sobre as dores de seu país.
Excelente postagem,amiga.Obrigada pela partilha.
Bjsssssss
Leninha

Zazá disse...

Obrigada pela visita ao Espelho Sem Aço.
Valeu, "moça bonita"( Gabriela: Jorge Amado)

Zazá disse...

Coloquei seu link no meu Blog ok?

Tais Luso disse...

OK, Zazá, muito obrigada!
beijos pra você.
Tais

Anne Lieri disse...

Tais,uma arte forte, chocante mas muito linda!Eu gostei muito,especialmente de saber mais sobre a vida de Botero que não conhecia!bjs e bom fim de semana!

Manuel Luis disse...

Um repórter pintor! Deve ser difícil pintar o sofrimento.
Uma exposição muito justa com mensagens para refletirmos.
Bj

SONINHA disse...

Todo artista é um grande político. E você, uma excelente professora de artes, amiga! É uma aula maravilhosa!
Beijocas, muitas!

Graça Pereira disse...

Botero para além de pintor, é um missionário que utiliza os seus pincéis como "armas" de justiça, de luta, de paz,apesar da crueldade que pinta e denuncia!
Gostei muito desta crónica tão explicita e completa.
Beijo
Graça

Sueli Gallacci disse...

Taís, demorou ,mas vim aqui comentar essa postagem. Eu já havia lido-a e achei emocionante! É sempre comovente ver um artista usando a arte como uma ferramenta do bem, como um veículo para mostrar ao mundo toda sua tristeza.

Vi aqui algumas obras que ainda não conhecia e pude ver o sentimento do ser humano antes do artista. Eu, acostumada a ver seus gordinhos tão simpáticos, que até fiz algumas releitura deles, não tinha como não me impressionar.

Falar do capricho das suas postagens, da estética impecável e da matéria clara e atraente, nem precisava, todos já sabem! Vc nasceu pra coisa rsrs.

Bjo grande.

urbanascidades disse...

Taís, o Urbanascidades convida voce e seus leitores para o seu 2° aniversário dia 21 de março. Sarau cultural com música, literatura e poesia, e convidados muito especiais. Não perca!
Um abraço,
Paulo Bettanin

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Diante do belo,
só nos resta
a contemplação...


Desejo que a alegria
faça folia em sua vida.