20.3.21

A ARTE DOS CEMITÉRIOS


Cemitério Guayaquil / Equador

- Tais Luso de Carvalho 


Quando criança eu achava a arte cemiterial um pouco macabra, mas era coisa de criança. Lembro que minha entrada em cemitérios era um vapt-vupt: o tempo necessário para assistir ao sepultamento, e por obrigação! Não queria saber de olhar para nada. Mas como tudo muda no percurso de nossa vida, tudo amadurece, passei a olhar um cemitério com olhos de quem quer ver arte.

E descobri que cemitério é um lugar que pode ser belo, onde não há mais ninguém, onde não há mais respiração e nem ação; que existe apenas memória e saudades. Mas memória e arte andam juntas, silenciosas, em harmonia.

Pude entender por que no Dia dos Finados, as pessoas ficam passeando pelas ruas dos cemitérios mais conhecidos e mais belos! São nesses túmulos que a arte se mostra formosa, bela e viva.

Antigamente pessoas ilustres eram enterradas em igrejas. Pensavam que por estarem mais perto dos santos teriam garantido seu lugar ao lado do Senhor. Os cemitérios eram destinados aos desvalidos, aos enforcados e aos escravos. Essa concepção veio até 1858 quando médicos e sanitaristas da cidade de São Paulo se deram conta que a cidade estava doente, que precisavam eliminar os focos das infecções. E os ilustres enterrados nas igrejas, eram um dos focos das infecções. Então o sepultamento, o lugar físico, saiu das mãos da igreja para as mãos do Estado.

No cemitério da Consolação em São Paulo há obras magníficas, mostrando dor, sensualidade, uma estética linda e apurada de um artista como Amadeo Zani, Victor Brecheret, Francisco Leopoldo Silva, Enrico Bianchi, Julio Starace, Luigi Brizzolara, Materno Giribaldi e de Giorgio. 


Além de ver arte, descobrimos nosso passado, onde se encontram as memórias de gente ilustre como Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, a Marquesa de Santos, Washington Luiz, Monteiro Lobato, José Bonifácio de Andrada e Silva...e tantos outros notáveis.

Hoje, já se agenda visitas monitoradas para o conhecimento da arte nos cemitérios. Isso acontece nos cemitérios da Europa, como o Pére-Lachaise, do Rigoleto e Chacarita na Argentina, no Cemitério da Santa Casa de em Porto Alegre, Consolação, em São Paulo e em muitos outros espalhados pelo mundo afora, onde a arte não se intimida, pelo contrário, acolhe.

Como podemos atestar, nem após a morte há igualdade entre as pessoas: mausoléus de mármore, ricos adornos e belíssimas esculturas - ostentadas pelos familiares -, ainda mostram que igualdade social é uma utopia. Mas este é um assunto para o meu outro blog. Aqui, quero mostrar um pouco da arte que existe nos cemitérios e não dizer que a obra é de tal família, ou o que é de quem. Quero mostrar como é viva a arte que está entre os mortos. Deixo aqui algumas obras maravilhosas da arte cemiterial!



Cemitério Recoleta 

Cemitério Recoleta, Buenos Aires

Cemitério da Consolação / São Paulo


Cemitério Bonfim / Belo Horizonte


Cemitério Municipal de Curitiba - escultor Alberto Bazzoni

Túmulo de Chopin - Cemitério Pére-Lachaise em Paris


Cemitério Pére-Lachaise

Cemitério da Santa Casa / Porto Alegre, RS

Cemitério Consolação - SP /esc. Victor Brecheret



1.3.21

MURILLO – O PINTOR BARROCO

Murillo / Bodas em Caná -1672


         - Tais Luso

Bartolomé Esteban Murillo nasceu em Sevilha, no dia 1º de janeiro de 1618 e morreu aos 64 anos, em 1682. Seu pai chamava-se Gaspar Esteban, era barbeiro. A sua mãe chamava-se Maria Pérez Murillo. Murillo era o filho número catorze. No início Murillo foi influenciado pelo seu mestre, suposto tio, Del Castillo.
Murillo talvez seja o pintor que melhor define o barroco espanhol. Após conquistar reputação com uma série de 11 pinturas sobre a vida dos santos franciscanos, feitas para o mosteiro franciscano de Sevilha, suas pinturas estão dispersas pela Espanha e outros países. Em muitos museus, também.
A maior parte de suas pinturas são cenas religiosas que apelam fortemente à piedade popular e ilustram as doutrinas da Contra-Reforma Católica, especialmente o dogma da Imaculada Conceição, seu tema favorito. Seu estilo maduro distingue-se claramente de suas primeiras obras, caracterizando-se por figuras idealizadas, formas suaves, colorido delicado e doçura de ânimo e expressão.
Ao contrário da pintura grandiloquente, rica, opulenta de Goya ou Velazquez, ele criou uma obra de cenas contidas, domésticas, pobres, infantis. Talvez por ter vivido a decadência do outrora rico Império Espanhol, que mergulhava no obscurantismo religioso.
Foi nos conventos que adquiriu um estilo caseiro, intimista, plácido, onde os eventos clássicos são situações contidas, e os Santos como quaisquer pessoas. De certa forma, democratizando a arte sacra até então conhecida.
Acabando com as cenas lancinantes de martírios, de lágrimas de granizo, de arrebatamentos místicos, de langores religiosos. Os quadros de Murillo são humanos, mas de uma luminosidade moderna. Foi arrasado pela crítica por ter embelezado a pobreza de seus modelos.
Em 1660 fundou uma Academia em Sevilha com ajuda de Valdés leal e Francisco Herrera.
Na época era o único pintor espanhol conhecido fora do país. Teve muitos assistentes e seguidores e continuou influenciando pintores até o século XIX, o qual muitos críticos o incluíram entre os maiores de todos os tempos.
Murillo casou-se em 1645 com uma jovem de Sevilha, de 22 anos, Beatriz Cabrera y Villalobos, na famosa Igreja da Madalena. Durante os dezoito anos de matrimônio tiveram nove filhos, porém morrendo quatro, da peste que assolou Sevilha em 1649.
Morreu simplesmente, fazendo uma ligação indissolúvel entre a grande arte e o mundo real dos homens. Sua morte foi devido a uma queda enquanto pintava sobre os andaimes, O Casamento de Santa Catarina, para os capuchinhos de Cádiz.
Hoje é admirado pelo realismo temático, pela leveza e fluidez das cores, sem pretensões. Suas obras estão no Museu do Prado/Madri, Museu de Belas Artes/Sevilha, Hermitage, Nacional Gallery/Londres, Museu de Ohio, Museu Nacional de Arte antiga/Lisboa, Museu do Louvre, entre outros, e muitas galerias dos Estados Unidos e da Europa. Ainda hoje, Murillo encontra-se como um dos artistas mais reconhecidos.

Murillo / Retorno do Filho Pródigo - 1667 (por volta)
Murillo / Juniper e o Mendigo - 1645 (por volta)
     Meninos, melão e uvas - 1645                                    Toilette                                                        

________________________________           
Referências:
Grandes Pintores/P.R.Derengoski
Dicionário Oxford de Artes/ Martins Fontes São Paulo 2007




18.2.21

BRUNO CATALANO / ESCULTOR



por Tais Luso de Carvalho

Não poderia deixar de postar algumas das esculturas de Bruno Catalano, nascido na França no ano de 1960. Sua coleção - Os viajantes - é a mais curiosa: mostra pessoas em tamanho natural caminhando apressadas, com movimento e levando suas maletas, mochila, violino etc. Começou sua carreira de escultor em 1990. 
Não tem como suas esculturas não chamarem nossa atenção, diferentes, vazadas e com grande força. São em bronze, vigorosas, parecem quase vivas: são cópias fiéis de nós mesmos. Ora lhes empresta vigor, ora desânimo.


Sua  coleção está em grandes corporações  públicas e privadas da França, Inglaterra, China, Bélgica, Suíça e Estados Unidos. 
Matriculou-se na oficina de modelagem e desenho com Hamel Françoise por dois anos. Aprendeu todos os segredos da argila em pesquisas,  inclusive com o escultor Bruno Lucchesi.
Olhando sua obra, em seu site, vê-se que as peças são ocas e o ponto de união e sustentação, entre as partes inferior e superior  é a mala - sempre colada à perna.
















23.1.21

WILLIAM TURNER




                                - Tais Luso de Carvalho


         Joseph Mallord William Turner, nasceu em Londres no ano de 1775 e foi um dos mais bem-sucedidos artistas do século 19. Desde garoto demonstrou inclinação à pintura fazendo desenhos que seu pai expunha na vitrina de sua barbearia. Já aos 12 anos como aprendiz do gravador John R. Smith, coloria gravuras obtendo noções de perspectiva e aquarela. Seu enorme talento abriu-lhe as portas da Royal Academy (1789), para se aperfeiçoar.

Aos 20 anos foi contratado por uma revista – Copper Plate Magazine – para fazer ilustrações. Seu trabalho consistia em viajar pelo interior da Inglaterra, retratando velhos castelos, abadias, catedrais e paisagens. Revelou-se excelente aquarelista, preocupado, sobretudo, com os efeitos de luz. 

Apesar do processo de urbanização da Inglaterra, consequência da Revolução Industrial, Turner continuou fiel às paisagens, característica que o consagrou como um dos últimos românticos ingleses. Em 1796, quando expôs suas primeiras paisagens a óleo, foi recebido com sucesso. Em 1799 foi eleito membro da Royal Academy. O sucesso deu-lhe condições para viajar à França e à Suíça, pintando paisagens locais.
Em 1804, construiu atrás de sua casa, na Harley Street uma galeria para expôr permanentemente suas obras, transferindo-a, depois, para a Queen Ann Street. Em 1804 foi nomeado professor da Royal Academy.

IMPRESSIONISTA

Trabalhava sempre seus esboços ao ar livre, mas coloria em casa, confiando em sua memória e valendo-se de anotações valiosas. Foi em 1819 que fez uma longa viagem pela Itália, quando se familiarizou com as obras de Canaletto. Dessa viagem surgiu uma nova fase, que se prolongou até 1840: a obsessão pela luz tomou conta de suas telas.

Turner não só mostrava apenas os detalhes do local em que retratava, mas em descrever as condições atmosféricas e como elas modificavam as cenas, causando impacto emocional no espectador.

Passou a pintar muito as marinhas ou paisagens com muita água, onde a luz podia se refletir. Mal compreendido pelos seus conterrâneos foi chamado de  O pintor do branco. É dessa fase a obra  Fragata Téméraire (1839), retratada no momento em que era rebocada. 

Nessa tela, ela é de cor prata, sobre um fundo de pôr de sol e com a imensidão do mar refletindo a cena. Porém a obra foi considerada vistosa, mas sem valor.
Solteirão, transferiu-se para Chelsea, sob o nome falso de Mr Booth, afim de afastar os inoportunos. Os vizinhos julgavam-no um velho marinheiro aposentado e meio louco. 

Suas telas passaram a se constituir de vibrações de luz e movimento; pintava cataclismos cósmicos e passou a interessar-se pelo conflito dos elementos. Os contemporâneos não o compreenderam, mas para os impressionistas era um mestre, que passava a impressão instantânea registrada pela retina.

O escritor e crítico de arte John Ruskin o defendeu quando seus conterrâneos só viam o negativo em suas obras. Em Os Pintores Modernos, obra publicada em 1843, Ruskin descreve:

A tempestade de neve como uma das maiores afirmações do movimento do mar, da névoa e da luz que jamais foram retratadas numa tela.

Morreu em Londres, em 1851, deixando ao patrimônio nacional toda a sua obra: cem telas acabadas, 182 inacabadas e mais de 19.000 desenhos e aquarelas. Para compor essa coleção chegou a recusar vultosas somas, pois achava sua obra muito importante para ficar em mãos particulares. Considerava-se um patrimônio artístico. Sempre que podia comprava trabalhos que vendera quando jovem, para legá-los à Nação.

Seu grande mestre, sua maior inspiração foi Claude Lorrain. Ao deixar suas obras à Nação, exigiu que em seu testamento duas de suas obras fossem sempre expostas ao lado de duas obras de Claude Lorrain.

Ficou visto como o grande compositor plástico da luz, do espaço, do vento e dos segredos. Entendia a linguagem secreta das tempestades e das ondas. Falava com o mar e com as nuvens. Calmarias, geadas, vendavais, nevascas, tudo se transformava de uma forma visionária, com contornos imprecisos dentro da imensidão dos espaços abertos, dos turbilhões da natureza. Nele a figura humana desaparecia.

Segundo sua vontade foi sepultado na Catedral de Saint Paul, ao lado de Sir Joshua Reynolds.










Fontes:
Arte Moderna - Norbert Linton 
Grandes pintores - P. Derengoski
Grandes artistas - Sextante





22.12.20

SANTOS BARROCOS / técnica da pintura

 70 cm /  de tais luso


 - Tais Luso de Carvalho

MATERIAL:
Para peças em madeira, cerâmica ou gesso.
Goma laca indiana
Goma laca purificada
Goma laca incolor
Tinta a óleo em bisnaga nas cores variadas e bege rosto
Verniz mordente
Betume da Judéia
Aguarrás
Secante de Cobalto
Pincéis (rosto 000 / condor ) e médio e largo – chatos
Purpurina ouro velho
Folhas de ouro
Panos macios
Azulejos ou recipientes para a mistura
Secador de cabelo ou ventilador


TÉCNICA: 
- Limpe a peça com pano seco e lixe as imperfeições. 
Caso a peça seja de cerâmica, dê uma mão inicial de PVA branca para dar um fundo e deixe secar.
- Após, pinte a pele: mãos, rosto e pés com  tinta a óleo cor bege. Mas o tom da pele é algo que vai de seu gosto, experimente, modifique se achar melhor - um tom mais claro ou mais escuro.
- Se for com tinta a óleo, dilua a tinta  no secante de cobalto (pouquinho) – serve para apressar a secagem da tinta a óleo.
- Pinte as vestes com a cor (óleo) característica das vestes dos santos.
- Deixe secar bem por algum tempo. Pode usar secador de cabelo.
- Passe só nas vestes uma camada de goma laca indiana. E secar com secador de cabelo.
- Passe verniz mordente (serve para colar a folha de ouro) em alguns lugares das vestes: mangas, ombros, barra... - mas só nas vestes. Espere o ponto de aderência (grudando). Solte, então, as folhas de ouro pegando-as por baixo, pois elas marcam.
- Ajeite, de leve, com um pincel macio, só tocando no ouro. Deixe secar bem. Cerca de 1 hora.
- Passe, apenas sobre as folhas uma mão de goma laca incolor. Isso é para evitar a oxidação do ouro, para que fique sempre igual. Deixe secar.


Agora está no momento de trabalhar o rosto – o ponto forte dos santos. Você já deu a base bege, lembra?


- Faça uma mistura, suave, de um rosa com branco (é o blush) e aplique suavemente em direção às têmporas.
- Com um tom rosado contorne pinte os lábios.
- Pinte o fundo dos olhos de branco e a íris de azul ou castanho, não esquecendo da pupila preta e um foco de luz branco. Os olhos são de extrema importância.
- Contorne os olhos de um marrom escuro.
- A sobrancelha, procure fazer com a mão firme e o traço de uma só vez. Cuide para não fazer sobrancelha de perua... Santo é santo! Suba o risco e desça: santo não pode ter rosto de depressivo. Aí está o ponto mais difícil. Algum retoque, use a cor que você usou na pele como base, cubra, deixe secar e faça novamente. Sempre dá para refazer.


- Deixe secar bem. Após, passe uma vez goma laca purificada (para dar uma cor bonita). Deixe secar (essa é para dar uma cor mais natural). 
Após secar o rosto e peles, passe uma vez turmalina leitosa (para impermeabilizar totalmente quando for passar o betume). Não se assuste, ela ficará incolor ao secar. Pode usar o secador. Mas espere secar.


- Tudo seco? Rosto e vestes? Bem, pegue o betume, dissolva num pouco da aguarráz (a dosagem é importante, nem fraca, nem forte), um pincel macio, mais ou menos número 12 condor ou tigre e passe primeiro nas vestes, aos poucos. Vá retirando suavemente com uma flanela. Faça isso em toda a peça. Deixe o rosto por último e faça o mesmo. Limpe o rosto sempre no sentido para baixo, e rapidamente. Deixe o rosto e peles mais claros retirando mais o betume.

ATENÇÃO: é de gosto pessoal o envelhecimento da peça; caso queira uma peça mais envelhecida, não retire muito o betume e deixe-o mais concentrado. Eu costumo deixá-las menos envelhecidas para que se destaquem as expressões que muitos procuram: de compaixão, de esperança e de ternura.


- Tudo seco? Passe talco em toda a peça e retire com um pincel super macio! Isso é para tirar o brilho do betume.
Ficou bonito? Parabéns! Eu fiz muitas experiências até conseguir uma impermeabilização boa, sem perigo de manchar o rosto. Santos de 45 a 75 cm são os mais bonitos. E vendáveis.


 Clique e veja mais Santos aqui. 
Bom trabalho!


5.12.20

DE CHIRICO EM PORTO ALEGRE



       - Tais Luso de Carvalho


As mais expressivas obras de Giorgio De Chirico, um dos gênios da pintura do século XX, encontram-se em Porto Alegre na Fundação Iberê Camargo. Esta mostra começou no mês de dezembro de 2011 e ficará até março de 2012. 

Como não podia deixar de ver, fui ao encontro de suas obras. Digo que, sendo ele um de meus artistas preferidos, tive de segurar a emoção. Não imaginei que um dia pudesse ver suas obras tão de perto. E até tocá-las com o coração... 

A exposição O Sentimento da Arquitetura – obras da Fundazione Giorgio e Isa De Chirico, mostra 45 pinturas, 11 esculturas produzidas por De Chirico, - mestre da arte metafísica entre os anos de 1950 e 1970 -, além de 66 litografias de 1930, apresentadas juntas pela primeira vez. A arquitetura é um dos motivos centrais da pintura do italiano, pioneiro do Surrealismo e criador da chamada pintura metafísica. E está presente em toda a exposição.

Diz o pintor que a arte é uma indagação sobre o que é o indivíduo moderno. Ele nos mostra como a arquitetura e o imaginário visual são formas de entender a vida – segundo Maddalena D'Alfonso, crítica italiana de arte e arquitetura e curadora dessa retrospectiva de De Chirico. Suas cidades são mostradas sob diversas formas: a cidade metafísica, a cidade renascentista, a cidade hermética e a cidade moderna, sendo a mais conhecida a cidade metafísica.

A cidade metafísica ocorreu em Florença, executada em Ferrara, um exemplo está em Musas Inquietantes. Fragmentos díspares se põem ao lado do Castelo Estense, que surge em perspectiva distorcida sobre um palco de tábuas onde se assentam misteriosas esculturas manequins.

A cidade dequiriquiana também é clássica, inspirada no mito grego e na arquitetura renascentista. Como exemplo temos O pensador.

A cidade hermética nos dá como exemplo a obra Triângulo metafísico com luva.
A cidade moderna, de praças geométricas silenciosas e melancólicas, perdidas no vazio e como à espera, onde se transfiguram os primeiros exemplos da moderna arquitetura turinense adorada por Nietzsche, imagem da cidade que veio a inspirar parte da arquitetura do século XX.

A articulação do imaginário de Chirico não se esgota na representação de espaços externos, mas também inclui cenas de interiores, apresentando cômodos com objetos como metáforas da complexidade mental e efetiva do homem moderno.

Em Os Arqueólos, por exemplo, homens compostos de relíquias da antiguidade, são os laboriosos mineradores da história e da memória, de cujas vísceras extraem para a luz os vestígios de civilizações esquecidas, que são o fundamento da nossa.

Vê-se, na obra de Chirico que há sincronia entre passado e presente, que remonta aos gregos, em cujo centro se ergue o homem de espírito e de poesia.
 
De Chirico viveu em Florença, Turim, Munique, Nova York,Ferrara e Paris, até fixar-se em Roma. De Chirico inspirou o grupo surrealista de André Breton, como o espaço surreal, onde atravessam simultaneamente o vapor de uma locomotiva e a vela homérica – diz Maddalena.

Percebe-se na sua obra que tempo e espaço estão em suspensão – como manda a metafísica. Em suas obras aflora um artista, um filósofo, um arqueólogo.

O gaúcho Iberê Camargo foi aluno do pintor em Roma, no ano de 1948, quando ganhou uma bolsa de estudos na Europa. O que aprendeu com De Chirico, foi o processo de misturar as tintas e pigmentos e de trabalhar a pintura.



Clique nas fotos para aumentar 
















Mais sobre De Chirico neste blog: aqui

Fonte:
Fundação Iberê Camargo / Exposição De Chirico –
O Sentimento Da Arquitetura - Curadoria Maddalena d'Afonso


9.11.20

ART NOUVEAU


 
Alphonse Mucha - Riverie 1897
       
          - Tais luso


O termo ‘Art Nouveau’ designa um estilo na arquitetura e artes aplicadas que floresceu na Europa entre a última década do século XIX e os primeiros anos do século XX. O movimento recebeu diferentes denominações em diversos países:
Arte Nova, Portuga, Art Nouveau, na França; Modern Style, na Inglaterra; Jungendstil, na Alemanha; Sezession, na Áustria; Stilo Floreale, Inglese ou Liberty, na Itália; Modernismo, na Espanha, além de outras denominações curiosas.
Art Nouveau originou-se do nome adotado pelo decorador e colecionador Samuel Bing para sua loja em Paris, inaugurada em 1898. Lá havia trabalhos dos artistas Tiffany, Henry van de Velde difundindo as novas idéias entre decoradores.
A repetição acadêmica de modelos desgastados levou os artistas a buscarem o novo, a romperem com os chamados estilos históricos como o neo-renascentismo, neogrego, neocelta, neobarroco, nei-rococó, hindu, etc., proclamando sua intenção de ser a arte do presente, a arte moderna.
Essa arte representou uma ruptura com as tradições naturalistas do século XIX; procurou unir a arte à técnica moderna e à produção industrial; e na arquitetura adotou novos materiais de construção visando unir a beleza e a funcionalidade.
Suas primeiras manifestações datam de 1880, atingindo o apogeu em 1900 - quando obteve consagração internacional. Após, entrou em declínio embora perdurasse até a Primeira Guerra Mundial.
O elemento feminino sempre esteve presente: era a mulher sensual, melancólica ou demoníaca, com forte carga erótica (vitrais de E.Grasset).
Outra das características desta arte foi a acentuada presença do artesanato ao lado das máquinas numa tentativa de integrar os interiores arquitetônicos pesados, com excessiva decoração e acúmulo de objetos, tornando, aos poucos, um lugar mais amplo e de melhor aproveitamento de espaço.
Na Espanha Antonio Gaudi trouxe uma imensa contribuição, sua arquitetura assemelhava-se à escultura: desenhou ambientes, peças de mobiliário e detalhes para suas construções, impregnado-as, às vezes, de um caráter alucinatório que o tornou alvo de admiração dos surrealistas. Outros expoentes da arquitetura desta época foram E.Vallin, H.Grimard, Louis Sullivan entre tantos outros. Foi no campo das artes plásticas que o Arte Nouveau mais se expandiu. Os principais artistas foram Eugène Grasset, Jules Chéret, Pierre Bonnard, Toulouse-Lautrec, Teophille Steinlen, Felix Vallonton, A. Mucha, Edward Munch entre tantos outros na Inglaterra, Holanda, Estados Unidos, Alemanha, Escócia, Bélgica...
Na técnica de vidro cito Emíle Gallé, cuja produção ligava-se às formas da natureza. Grande variedade de vasos e abajures, com decoração esmaltada ou em camadas superpostas em relevo formando contornos de insetos, folhas e flores de longas hastes.
Nos Estados Unidos, Tiffany enriqueceu a arte da vidraçaria fabricando vasos de linhas delgadas, elegantes e coloridos. E René Lalique deixou sua marca única, conhecida mundialmente. M.Vrubel, Klimt, Visconti deixaram suas belas marcas em murais e mosaicos, enquanto Bugatti, Gaillard e outros deram suas contribuições aos móveis decorativos.
No início do século XX os preceitos e teorias do Art Nouveau já apareciam desgastados, suas formas mal copiadas. O Art Nouveau não repudiou a industrialização, mas não sobreviveu a ela: o técnico substituiu o artesão.


Abajur Tiffany

Cartazes ilustrativos

Rua Cândido Reis / Porto, Portugal



Antoni Gaudi: Casa Mila (La Pedrera)


17.10.20

BARROCO / INTRODUÇÃO



Igreja Santiago de Compostela
   
UM POUCO DA HISTÓRIA DO BARROCO 


O período conhecido como Barroco,  que abrange os sécs. XVII e XVIII da arte européia, pode ser encarado como um meio-termo entre a Renascença e a era moderna. Num certo sentido foi a retomada da Renascença.

Como todas as fases da arte, o Barroco passou pela conhecida sequência de ascensão,  apogeu e declínio. Mas a semelhança com a Renascença vai ainda mais longe. Os artistas do Barroco e da Renascença defrontavam-se, essencialmente, com os mesmos gêneros de tarefas e trabalhavam, predominantemente, para os mesmos clientes: a corte, a aristocracia e a Igreja.  

O Barroco foi um termo estilístico para descrever a arte que surgiu primeiro na Itália, pouco antes de 1600, florescendo até meados do séc. XVIII espalhando-se pela França, Alemanha, Áustria, Polônia, Espanha e colônias espanholas além-mar.

Em italiano e francês circulou como um sentido metafórico que significava qualquer ideia enrolada ou um processo tortuoso e intrincado de pensamento.

A sua aplicação à arte só começou na segunda metade do séc. XVIII, durante a ascensão do Neoclassicismo. Era até certo ponto um estilo em oposição aos valores clássicos.

O crítico italiano Milizia escreveu em 1797: ' o Barroco é a última palavra em bizarria; é o ridículo levado a extremos. Borromini caiu no delírio, ao passo que, na sacristia de S.Pedro, Guarini, Pozzi e Marchione adotaram o Barroco'

No séc. XIX a palavra continuou a ser usada para certos aspectos da arquitetura italiana seiscentista, embora a hostilidade para com o estilo se propagasse às outras artes e também à arte de outros países. Só depois da publicação de 'Renaissance und Barock – de H.Wölfflin, 1888, foi que o Barroco neutralizou-se para fins de história da arte, mesmo que aplicado a um período anterior – 1530 e 1630.

Apenas na Alemanha era respeitada, no resto da Europa era considerada, ainda, uma continuação aviltada da arte da Renascença.

Na Inglaterra e na América o preconceito popular contra o Barroco manteve-se até quase a II Guerra Mundial. Desde então teve aceitação - em parte - devido à disposição contemporânea em considerar qualquer estilo segundo os seus próprios méritos, em vez de julgá-lo de acordo com padrões estéticos abstratos e devido a audácia do Barroco para o gosto moderno.

Igreja de Jesus, Roma de arquitetura de Giacomo Vignola, iniciada em 1568: o uso barroco de materiais ricos e decoração com ornatos como meio de glorificação a Deus e apêlo às emoções do crente, é apresentado nestas fotos. No início a decoração era despojada e só recebeu a sua presente forma no final do séc XVII. Pinturas da cúpula e nave por Gaulli - de 1672 a 1683.



O pioneiro desta arte, torneada, ousada e cheia de rebuscamentos luxuosos foi o italiano F. Barromini no século XVII. O barroco mostrou-se não só nas artes propriamente dita, mas também na literatura e na música. O ponto alto eram os detalhes. Tudo estava de acordo com as aspirações da época, pois a soberania européia aspirava por um estilo que exaltasse seus reinos, demonstrando com isso, todo o poder que tinham. 

Notabiliza-se pelo dinamismo e movimento das formas, violentos contrastes de sombra e luz para obtenção de intensos efeitos expressivos, bastante emocionais, ora patéticos, ora suntuosos. Essa movimentação das formas dramática ou decorativa, observa-se também na arquitetura e na escultura.


O Barroco no Brasil / clique aqui
O Barroco e a Igreja Católica / aqui