17.12.21

VICTOR BRECHERET



            
             - por Tais Luso de Carvalho 

- Monumento às Bandeiras -
Uma das maiores esculturas do mundo - em bloco de granito de 50 metros de comprimento, por 16 metros de largura e 10 de altura. São 37 figuras, ao todo. Considerada um marco da cidade, é uma homenagem aos bandeirantes paulistas que estenderam as fronteiras brasileiras e desbravaram os sertões nos séculos 17 e 18. Esta obra foi inaugurada no dia 25 de janeiro de 1953 como parte das comemorações do 399º aniversário de São Paulo.

Seu nome de origem era Vittorio Brecheret, nasceu em Farnese – Província de Viterbo / Itália, em 1894. Filho de Augusto Brecheret e Paolina Nanni - que faleceu quando o pequeno Vittorio tinha apenas 6 anos de idade. Foi acolhido pela família do tio materno, Enrico Nanni, e com sua família emigrou para São Paulo, ainda na infância. Trabalhava com o tio numa fábrica de sapatos durante o dia, e à noite fazia cursos no Liceu de Artes e Ofícios.

Mudou o nome para Victor Brecheret, recorrendo à justiça,  já com mais de trinta anos, para registrar-se no Registro Civil do jardim América – em São Paulo. Desta maneira obteve a nacionalidade, também brasileira.

O neoclassicismo dominava os círculos culturais que estimulavam as viagens de escultores à Europa à procura de vestígios, indiferentes à tensão renovadora que sacudia o velho continente.
Em 1913, já com 19 anos, seus tios o enviaram para Roma, para aprender a arte da escultura, mas dada a sua falta de formação, não foi aceito na Academia de Belas Artes. Porém, foi recebido como aluno de Arturo Dazzi, o mais famoso escultor italiano na época. Permaneceu em Roma 6 anos, voltando ao Brasil em 1919.

Frequentou vários estúdios de escultores, aprendendo a difícil arte de esculpir, como amassando o barro, aprendendo as formas e leitura do gesso, o estado da pedra e do mármore, aprendendo, também, a anatomia humana e animal, no período em que trabalhou como aluno de Dazzi.

Após estudar no Liceu de artes e Ofícios de São Paulo e em Roma, Brecheret teve seus trabalhos divulgados pelos modernistas como Di Cavalcanti, Menotti del Picchia e Mario de Andrade.
Brecheret distinguiu-se de outros escultores que transmitiam conceitos mais tradicionais. Até Monteiro Lobato, que hostilizava Anita Malfati, disse que Brecheret se apresentava como a mais séria manifestação do gênio cultural surgido naquela época.

Em Roma ganhou o primeiro prêmio na Exposição Internacional de Belas Artes. Em 1917, fixou-se em Paris, onde frequentou os grandes nomes do cubismo. De volta ao Brasil, participou da 'Semana de 22' – um dos acontecimentos mais importantes na formação do grupo modernista -, expondo suas obras no saguão do Teatro Municipal de São Paulo, juntamente com Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanto e Anita Malfatti.

Em 1934 o governo francês adquiriu a sua obra Grupo para o Museu Du Jeu de Paume e o condecorou com a Cruz da Legião de Honra.

A construção do Monumento às Bandeiras, iniciada em 1933, por vários empecilhos só foi completada quase 20 anos depois. Era um artista que falava pouco de si e de sua formação.

Brecheret foi premiado como melhor escultor nacional na I Bienal de São Paulo, em 1951, morreu em São Paulo em 18 de dezembro de 1955.




A obra Fauno - entidade campestre em 1942. Metade homem, metade cabra sobre uma pedra com um cacho de uvas e uma flauta nas mãos.




A obra Depois do Banho pode ser visto nos jardins do Largo do Arouche, na região central, inaugurada em 1932. Não há registros de que na época a nudez da obra tenha chocado os paulistanos. 








Algumas obras:

Monumento às Bandeiras / está no Ibirapuera – São Paulo
Duque de Caxias / está na Praça Princesa Isabel – São Paulo
Depois do Banho / Largo do Arouche
Fauno / está no parque Tenente Siqueira Campos – São Paulo
Eva / está na Prefeitura de São Paulo
Busto de Santos Dumont / Aeroporto de Congonhas – São Paulo
Diana Caçadora – Teatro Municipal de São Paulo
Morena – Palácio do Planalto – em Brasília
Busto do General Sampaio – Blumenau / SC
Anjo – Cemitério da Consolação – São Paulo
Anjos – Cemitério de São Paulo
Cruz – Cemitério da Consolação
Portadora de perfume / Pinacoteca de São Paulo.



Fontes:
Artistas Italianos nas Praças de São Paulo / Bruno Pedro Giovannetti Neto – São Paulo Empresa das Artes, 1992
Grandes Artistas / Sextante



16.11.21

ANTONIO BANDEIRA - 0BRAS

Eclipse - 1954


      - Tais Luso de Carvalho

'A pintura não é feita para ser compreendida: deve ser capaz de uma comunicação humana, logo que for sentida através de um rápido olhar. Diante dela o homem não deve rir nem chorar, apenas ficar calado'.

Nesses termos, Antônio Bandeira definia a arte vibrante que criara desde seus anos de juventude. Nasceu em Fortaleza/Ceará no ano de 1922. Cedo revelou interesse pela pintura e lá em sua cidade começou a estudar arte. Anos depois reuniu-se com alguns pintores de Fortaleza e fundou o Centro Cultural Cearense de Belas-Artes.

Em 1945 Bandeira transferiu-se para o Rio de janeiro e, em seus quadros, o mar e as palmeiras da terra natal foram substituídas pelas vistas distantes cariocas. Obtendo grande sucesso através de sua exposição individual no Instituto de Arquitetos do Brasil, ganhou uma bolsa de estudos e partiu para a França em 1946. Dedicado a uma intensa atividade, estudou na Escola Superior de Belas Artes, seguiu cursos livres de desenho na Académie de la Grande Chaumière, além de frequentar o atelier de Narbonne e aprender gravura com Calanis.

Entre os vários pintores que Bandeira conheceu em Paris, Wolfgang Wols e Bryen foram os que exerceram maior influência em sua formação artística, aderindo ao informalismo ou abstracionismo lírico, movimento que surgia na época para combater a rigidez da pintura abstrata geométrica, utilizando formas indefinidas e cores alegres, animadas de puro lirismo.

Em 1964 instalou-se definitivamente em Paris onde veio a falecer em 1967. Inúmeros prêmios marcaram a vida de Bandeira onde participou de Bienais em São Paulo, Veneza, exposição em em 1955 onde foram vendidos, em poucos dias, todos os seus quadros na Obelisk Galery de Londres.

O MAM no Rio de janeiro, em outubro de 1969 fez uma retrospectiva de 300 obras do pintor, incluindo até objetos pessoais encontrados após sua morte no atelier que ocupava em Paris. Em 1970, a Collectio de São Paulo expões sessenta trabalhos de Bandeira.

'Nunca pinto quadros. Tento fazer pintura. Meu quadro é sempre uma seqüência do quadro que já foi elaborado para o que está sendo feito no momento, indo esse juntar-se ao que vai nascer depois. Talvez gostasse de fazer quadros em circuitos, e que eles nunca terminassem e acredito que nunca terminarão mesmo'.

Antonio Bandeira: 1922 Fortaleza / 1967 Paris. Um pintor brasileiro que consagrou-se internacionalmente



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                      Retrato de menino 1952            Menino sentado 1945                           


                    Auto-retrato - 1944                                     Mulher na rede - 1945                   
                          
Transatlantique - 1948


Cidade iluminada - 1953




19.10.21

A ARTE DAS CHARGES E CARICATURAS




            - TAIS LUSO
      
Os cartunistas e chargistas são artistas maravilhosos que têm o dom de mostrar com humor, pimenta, ironia e com traços acentuados das pessoas (o que deforma), quando uma realidade cambaleia. Mostram situações absurdas, ridículas ou safadas do nosso cotidiano, aproveitando certos detalhes que se salientam no físico da pessoa. Esses detalhes fazem a diferença na obra, juntamente com a ideia inteligente.

Os chargistas têm a habilidade para, através do desenho, fazer uma crítica político-social do momento; é aquele artista que faz sátiras de acontecimentos atuais, utilizando-se de ilustrações conhecidas como caricaturas.

Eles são rapidinhos, e o campo é muito fértil. Há uma variedade interminável de 'acontecimentos', e todos entenderão - rapidinho - a podridão do Reino... E sem o uso de muitas palavras. Às vezes, nenhuma. E tudo com leveza, humor, sutileza e pimenta calabresa.

Mostram tudo: a devassidão, a roubalheira, o cara dissimulado, os acordos ou favores trocados, enfim, a transgressão.

São esses artistas que contam e deixam registrados os abusos e as safadezas da época, e de uma maneira incomum. Mostram o azedume da situação e chamam a atenção a quem possa estar meio por fora... Penso eu, que essa é uma arte que agrada aos  gregos e troianos. Todos nós gostaríamos de poder dizer o que eles dizem com escracho e com deboche: 'Aí, cara, te pegamos com a mão na botija, seu safado!' O efeito de uma charge é grande e não tem bate-boca.

O homem sempre sentiu a necessidade de se expressar através do desenho e da pintura. E chargistas e caricaturistas não são diferentes. Os escravos desenhavam - na senzala - os bigodes arrogantes do seu 'senhor' ou partes protuberantes da 'senhora' ou da 'sinhazinha'. Desenhavam com carvão.

Esses artistas disparam seus mísseis com inteligência, com criatividade, com muita observação, com astúcia e gozação. Com um simples lápis atingem o alvo escolhido: o povo!


Ronaldinho Gaúcho / Tiago Hoisel


por Hoisel

por J Bosco

Saramago- por Tuba

por Paulo Caruso





caricaturas e charges dos espaços abaixo:
Paulo Caruso
J Bosco
Tiago Hoisel
Grafar

1.10.21

ALDO LOCATELLI



- por Tais Luso de Carvalho

Aldo Locatelli nasceu em Bérgamo, no norte da Itália no ano de 1915. Como tirou o 1º lugar num curso de Decoração da Escola Aplicada de Bérgamo, foi-lhe dado uma bolsa de estudos, em 1932, para a Escola de Belas Artes de Roma, onde se dedicou a estudar os afrescos de Michelangelo na Capela Sistina, assim como as obras de Rafael, Botticelli entre outros grandes pintores.

Entre 1943 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou em sua primeira obra na Catedral de Gênova. Suas obras religiosas estão no Santuário de Mulatiera, Paróquia de Santa Croce, Convento das Irmãs S.S.Consolatrice, em Milão, Catedral de Gênova, cúpula da igreja Nossa Senhora dos Remédios, Santuário Nossa Senhora da Pompéia, Colégio da Consolata, em Milão entre outros.

Viajou para o Brasil em 1948 a convite do bispo de Pelotas / RS, Dom Antônio Záttera para pintar os afrescos da Catedral de São Francisco de Paula.

Daí em diante permaneceu no Brasil, com sua esposa Mercedes Bianchieri, acompanhando-o desde seus trabalhos na Itália, e com ela teve dois filhos.

Em Porto Alegre, Locatelli foi solicitado a pintar o grande mural do Aeroporto Salgado Filho, o painel central da Catedral Metropolitana, o mural da UFGRS, o mural da sala dos músicos no Instituto de Belas Artes do Estado do Rio Grande do Sul onde foi convidado a lecionar. Em 1954 naturaliza-se brasileiro.

Sua obra-prima é a Igreja de São Pelegrino, em Caxias do Sul, que levou 10 anos até seu término. Sua obra não se restringe apenas em representações de cunho religioso: retratou o povo gaúcho, e a história com um enfoque no futuro.

Além de suas obras na Europa e no Brasil – especialmente no Rio Grande do Sul -, deixou sua marca e reconhecimento como um dos grandes artistas.

'A Catedral de Nossa Senhora da Conceição - Diocese de Santa Maria é um prédio com predomínio do barroco e neo-clássico cuja construção iniciou em 1922. Seu interior com belos altares em talha, vitrais e uma importante série de pinturas de Aldo Locatelli sobre a vida da Virgem Maria'. (Jacqueline M Fabrin)

Faleceu em 1962 em Porto Alegre, aos 47 anos, de câncer - vitimado pela inalação continuada dos produtos químicos provenientes das tintas.

Vídeo da série Negrinho do Pastoreio do Palácio Piratini.

Algumas de suas obras no Brasil:

1949 – Catedral de São Francisco de Paula
1950 - Mural ‘A Conquista do Espaço’ Aeroporto POA
1951 – Igreja de São Pelegrino, Caxias do Sul
1952 – Igreja Santa Terezinha do Menino Jesus
1954 – ‘Do Itálico Berço à Nova Pátria Brasileira’ / Caxias do Sul
1957 - Painel Central da Catedral Metropolitana
1958 - ‘As Profissões’ / UFRGS
1960 – Painel para Federação das Indústrias do RGS
Série de pinturas sobre a Virgem Maria / Catedral de Santa Maria-RS

Clique nas fotos para aumentar



Catedral de Santa Maria - clique para aumentar fotos


Coroação da Virgem Maria / 
Altar -mor - Santa Maria / RS 

Igreja São Pelegrino / Caxias do Sul


As Profissões - 1958 - Mural na Reitoria da UFRGS

Formação histórica-etnográfica do povo Rio-grandense 
3,95 x 6,20 - Porto Alegre

Negrinho do Pastoreio rezando à Nossa Senhora /
 Palácio Piratini


Negrinho do Pastoreio / Cancha reta / Palácio Piratini

Negrinho do Pastoreio  
O Revolteio do Cavalo Baio  / Palácio Piratini

Negrinho do Pastoreio 
 Gineteando o baio nos céus / Palácio Piratini

Do Itálico Berço à Nova Pátria Brasileira



Outras obras...
Aparição de Nossa Senhora
Estância
Morte do Negrinho
Primeiro Castigo
Segundo Castigo
Amarrado na Soga
Parada Morta
Aposta
Três Viventes 
Estancieiro Solitário
A Guerra
Auto Retrato Pecuária e Indústria
O Gaúcho
Índio Missioneiro
A família Sulina
A Fundação de Rio Grande - entres outras...




'A Arte não é para agradar, mas sim para emocionar. 
É uma janela que um pintor abre para outros homens, para mostrar um mundo que eles não vêem, mas que precisam e devem sentir'.
(AL)

Livro sobre obra e vida de Aldo Locatelli: 
'Locatelli no Brasil' - Luiz Ernesto Brambatti
(598 fotos de suas obras)


Foto de abertura: clique em Capa de livro
http://vbaco05.ucs.br/arte+aldo+locatelli


14.8.21

A ARTE DOS ORATÓRIOS


- Tais Luso de Carvalho

Sendo o Brasil o maior país de religião católica do mundo, não é de admirar que muitas residências tivessem um oratório com seu santo de devoção. Oratório é sinônimo de fé. Unindo fé, espiritualidade e arte, temos um Museu do Oratório na cidade de Ouro Preto, Minas Gerais.

No texto do Acervo Cultural e Artístico, sobre Arte e Devoção,  há o relato de que entre as primeiras caravelas que chegaram no Brasil, em 1500, havia entre elas um oratório com a imagem de Nossa Senhora da Esperança. Mas o uso generalizado de oratórios, no Brasil, só aconteceu a partir do século 18. Oratórios são objetos que expressam a fé e a devoção da humanidade desde os tempos mais remotos e refletem a passagem do universo grandioso das igrejas para o espaço íntimo do cotidiano doméstico.

Um grande acervo de oratórios e imagens foi se formando em 1998 no Brasil, sendo que a maioria é Mineira. Um casarão do século 18, pertencente à Ordem Terceira do Carmo, no qual morou Aleijadinho durante o período em que trabalhou na Igreja do Carmo, de 1738 a 1814, hoje abriga o acervo com 163 oratórios e  300 imagens do século 17 ao século 20. É o único museu do mundo dedicado a esse tema.

A importância da coleção de oratórios, cuja influência vem do estilo barroco, rococó e neoclássico, é reconhecida em todo o mundo, o que levou o Museu do Oratório a ser frequentemente convidado a expor suas peças em eventos nacionais e internacionais de grande expressão.

O casarão foi totalmente restaurado, preservando o projeto arquitetônico original. Entre os diversos tipos de oratórios da coleção, destacam-se os do tipo bala, assim denominado pelo formato ovalado, semelhante as balas de cartucheira. O Museu do Oratório é administrado pelo Instituto Cultural Flávio Gutierrez, uma homenagem ao pai da colecionadora Angela Gutierrez, responsável pela criação do Museu. A coleção de oratórios já saiu várias vezes do Brasil. Pela primeira vez foi apresentada em Portugal, em 1994. Daí em diante levou parte de seu acervo à França, Itália, Chile, Venezuela, Inglaterra, Estados Unidos, Quito e Equador.
Vale a pena uma visita pelo vídeo - abaixo.
















Matéria ZH-cultura / Museu do Oratório, Minas Gerais