25.8.11

CUBISMO l

Les Demoiselles d'Avignon - Picasso - 1907

- Tais Luso de Carvalho

O movimento artístico apontado como um dos grandes momentos da mutação da arte ocidental foi criado por Picasso e Braque. Não é possível se dizer com exatidão a data em que nasceu um movimento, uma vez que é um processo de transformação, de saturação do anterior, o olhar para o novo, para novas e excitantes descobertas.

Foi um movimento em que os objetos já não eram reproduzidos em função da impressão óptica, mas fragmentados em formas geométricas. Distinguem-se entre cubismo analítico (até 1911) e o cubismo sintético (de 1912 até meados de 1920).

O impressionismo já estava agonizando e o Cubismo veio à tona com Picasso e Braque. Porém vários artistas vieram colaborando para que isso, um dia, se concretizasse. E pode-se dizer que com o cubismo deu-se o verdadeiro início da arte contemporânea.


No Cubismo Analítico os artistas trabalhavam com poucas cores, preto, cinza e tons de marrom e ocre. O mais importante era desenvolverem um tema e apresentarem de todos os lados simultaneamente, e de tão fragmentada a obra, era impossível o reconhecimento das figuras expostas.


Para recompor a excessiva fragmentação dos objetos, os cubistas passaram ao Cubismo Sintético, onde passaram a resgatar a imagem das figuras. Porém isso não significou um retorno realista da obra.


Outra etapa do cubismo foi a colagem, introduzindo na pintura, letras, pedaços de madeira, jornais, vidros e metal, fragmentos reais. 

O principal período de formação do movimento deu-se entre 1907 e 1914, mas alguns dos métodos e das descobertas dos cubistas foram integrados posteriormente a partir do repertório de muitas escolas artísticas do século XX. Foi adotado, depois, por Léger, La Fresnaye, Delaunay, Metzinger, Gleizes e Kupka.

O cubismo rompeu radicalmente com a idéia de arte como imitação da natureza, prevalecendo na pintura e na escultura européias desde a Renascença. Picasso e Braque abandonaram as noções tradicionais de perspectiva, escorço e modelagem tentando representar solidez e volume numa superfície bidimensional, sem converter pela ilusão a tela plana num espaço pictórico tridimensional. 

Na medida em que representavam objetos reais, procuravam figurá-los como eram conhecidos e não segundo a aparência que tomavam num determinado momento e lugar. Assim múltiplos aspectos do objeto eram figurados simultaneamente; as formas visíveis eram analisadas e transformadas em planos geométricos que eram recompostos segundo vários pontos de vista simultâneos. Neste sentido o cubismo era e dizia ser realista, mas tratava-se de um realismo conceitual, e não óptico ou impressionista. 

O movimento era resultado da visão intelectualizada, mais do que da visão espontânea. O Cubismo nasceu com o quadro Les Demoiselles d'Avignon, pintura de Picasso (1907), MOMA, de Nova York, com suas formas angulosas e fragmentadas. Cézanne tinha sido a última ligação ao estilo impressionista e a admiração que Picasso nutria pelo pintor era óbvia. A arte do séc XX, para o qual os impressionistas prepararam o caminho, seguiu vias diferentes. 

O cubismo além de ter sido uma das fontes principais da arte abstrata, era infinitamente adaptável, e gerou outros movimentos, como o futurismo, o orfismo, o purismo e o vorticismo. 

Em seu interesse pela representação de idéias, mais do que da realidade observada, constituiu-se numa das fundações da atitude estética do século XX.

Fernand Léger / vaso azul
cubismo sintético 1918
Mulher jovem / cubismo analítico

Mulher com Violão - G.Braque / 1913
Picasso - L Amitie
Juan Gris - Homem no café / 1914


Picasso / auto-retrato
Natureza Morta / G.Braque
Picasso / Factory in horta de Ebbo

2.8.11

MANABU MABE



- Tais Luso de Carvalho

As grandes cidades do mundo conhecem os trabalhos de Manabu Mabe. Mabe, o artista brasileiro que expõe em sua obra, a pintura do Ocidente habilmente unida ao traço oriental. Reveladoras de um imenso talento suas telas constituíram motivo de comentário nos centros culturais da América e Europa.

Manabu Mabe nasceu em 14 de setembro de 1924, na localidade de Takara, na cidade de Shiranui, Japão onde permaneceu até os 10 anos quando sua família veio para o Brasil. Na cidade de Lins, São Paulo, Manabu trabalhava com o pai na lavoura e, nas horas de folga obtinha as primeiras noções de arte com um pintor amigo. Em casa aprendia a escrita japonesa, participando de um ambiente acentuadamente oriental.

Após a morte de seu pai Manabu foi para a capital onde iniciou a pintura de gravatas, atividade modesta que ja prenunciava, porém, sua inclinação artística. No decorrer desta fase difícil, evoluiu o poder criativo do principiante, que antevia a possibilidade de dar vida a um amplo mundo pictórico. Aos 28 anos conseguiu realizar este sonho, expondo no Salão Nacional de Belas-Artes.

O ano de 1959 trouxe-lhe a consagração definitiva como pintor, principalmente através da Galeria Barcinsky, no Rio de janeiro e da obtenção dos prêmios na V Bienal de São Paulo e na 1ª dos jovens em Paris. Nesse ano, naturalizou-se brasileiro. E daí em diante muitos prêmios vieram.

O figurativismo na obra de Manabu representou apenas uma fase inicial. Um exemplo dessa época é a obra Toilette. Mais tarde sua pintura transformou-se completamente; em 1957 volta-se para o abstracionismo – estilo que adotou definitivamente.

Manabu foi um dos precursores da arte abstrata no Brasil. Reconhecido e aplaudido no país e exterior, deixou uma vasta obra composta de abstratos, desenhos, figurações, geométricos, natureza-morta e paisagens.

Participou durante anos da FIAC (Feira Internacional de Arte Contemporânea) em Paris e da ARCO na Espanha. Em 1959 recebeu o Prêmio Leiner na exposição das Folhas em que participaram artistas de todo o país; e em 18 de Setembro, o prêmio de "Melhor Pintor Nacional" na V Bienal de São Paulo.

Manabu Mabe, 73, morreu no dia 22 de setembro, às 13h, no hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, onde estava internado havia 25 dias. As causas da morte do artista foram septicemia (infecção generalizada), linfoma (tumor nos gânglios linfáticos), diabetes e problemas relacionados a um transplante renal. 

  



 


INSTITUTO MANABU MABE

A arte representa o espírito humano e o artista permanece em sua obra, vivendo através dos tempos. Salvaguardar e transmitir a herança patrimonial é dar significado ao que se entende como Nação.

O Instituto Manabu Mabe, entidade sem fins lucrativos fundada em 1997 — representada pela família Mabe — tem por objetivo contribuir para a difusão da arte e da cultura. Sua atuação, de natureza preservacionista, está voltada para pesquisa, catalogação, certificação, avaliação, autorização do uso de imagens, conservação e restauro das obras do internacionalmente reconhecido artista plástico Manabu Mabe.

Espelhado no exemplo deste sonhador, conhecido como o Samurai da Pintura, o Instituto trabalha com a mesma dedicação e entusiasmo no sentido de preservar a identidade nacional para as futuras gerações e o legado do maior abstracionista que o Brasil conheceu, elevando seu talento ao mais alto grau de expressão estética e intelectual. Manabu Mabe honrou com seu trabalho incansável a pátria que adotou de corpo e alma.
Notícia sobre o desaparecimento de várias obras de Manabu Mabe na queda de um avião Boing 707 da Varig, no dia 30 de janeiro de 1979. Foram 153 obras de Manabu Mabe que desapareceram no mar. Vejam a notícia.


Manabu Mabe em criação... veja!



13.5.11

JOHANNES VERMEER


 Moça com brinco de pérola / 1666 - clique foto
- Tais Luso de Carvalho

Johannes Vermeer nasceu em 1632, Delft / Holanda, oriundo de uma família protestante. Suas pinturas estão envoltas num certo mistério, pois produziu poucas obras, das quais poucas delas podem ser datadas com precisão. Talvez, por tantas incertezas, que o tornou mais popular nos últimos tempos. Teve uma carreira modesta e muitos anos de negligência.

Os anos de aprendizado, levaram o artista aos importantes centros de pintura de Utrecht e Amsterdã. Converteu-se ao catolicismo ao casar-se com Catharina Bolnes em 1653, mesmo contrariando a família de Catharina. Tiveram 11 filhos. Neste mesmo ano foi professor da Guilda de São Lucas, em Delft.

Inicialmente, despontou com pinturas históricas, retratando temas bíblicos e mitológicos que eram respeitados na época. No final da década de 1650, passou a retratar, então, a vida cotidiana, como ficou conhecido, usando a técnica do empaste (it. impasto) para dar vida ao detalhes.

Vermeer era conhecido por suas pinturas de cenas cotidianas, domésticas e introspectivas.
O que chama a atenção em sua pintura é a luminosidade, que ficou como sua característica mais notável. Eram, os pontos de luz, em posições organizadas, como na obra Rua de Delft e A Leiteira - 1658.

Seu estilo amadureceu, tornando-se mais leve e sutil. Obras como a Moça com brinco de pérola (1665) - que, com apenas duas pinceladas cria o brinco - e O estúdio do artista (1666), mostra o desapego em relação em que ele era conhecido.

Sua obra, a Moça com o brinco de pérola, toda a observação vai para a expressão do rosto da figura feminina. Os lábios entreabertos da moça, nos faz pensar que ela estaria para dizer algo. As cores empregadas no rosto e vestimentas, sem cenário, fazem da moça o centro da obra.

Já, A Rendeira (1670), chama atenção pela sua concentração, com gestos delicados e precisos.
Em, A Mulher lendo uma carta, a sala está inundada de luz e uma suave harmonia de cores e de formas.

Já na sua velhice, Vermeer  teve de lidar com fortes problemas financeiros, uma vez que sua produção foi de apenas 35 obras. Trabalhou, também, como comerciante de arte e estalajadeiro. Ao falecer em 1675, sua viúva herdou suas dívidas e teve de decretar falência.

Por ter ficado em Delft e por ter um estilo peculiar, a influência de Vermeer não se expandiu. Apenas no séc. XIX que o nome de Vermeer tornou-se conhecido, novamente. Sua reputação tornou-se saliente pelo realista francês Gustavo Courbet, onde os pintores holandeses inspiraram os naturalistas da época.

Algumas obras a destacar:
Moça com brinco de pérola, 1566
A Rendeira, 1670
Mulher lendo uma carta, 1665
O estúdio do artista, 1666
A Alcoviteira, 1656
A Leiteira, 1658
O Astrônomo, 1668
Mulher com colar de pérolas, 1664
Leitora à janela, 1659

Morre em Delft, Holanda em 1675. 
Fica-se sabendo, portanto, muito pouco das obras de Vermeer, porém a de número 36ª foi exatamente a Moça com brinco de pérola ou Mulher com turbante, reconhecida como autêntica, representada em livros e em  filme.
     
A leiteira / 1668
Leitora à janela / 1659
Rua de Delft / 1658
Vista de Delft / 1660

28.4.11

GUIA DE ESTILOS, ESCOLAS E MOVIMENTOS

Renoir / Impressionismo (+ zoom)


- Tais Luso de Carvalho 


É incontestável que a arte deve conter valor social; como poderoso meio de comunicação que é, deve ser dirigida e em termos compreensíveis à percepção da humanidade. 
(Rockwell Kent)


De 1860 a 1900:
Surgimento das Vanguardas:

Impressionismo - Arts and Crafts - Escola de Chicago - Os Vinte – Neo-impressionismo - Movimento Decadente - Art Nouveau – Modernismo – Simbolismo – Pós-impressionismo - Cloisonismo – Nabis – Sintetismo - Salão de Rosa-Cruz – Jugendstil - Secessão Vienense - Mundo da Arte.

Georges Seurat / neo-impressionismo (+zoom)

De 1900 a 1918:
Modernismos para um mundo moderno:

Fauvismo – Expressionismo - A Ponte - Ashcan School - Deutscher Werkbund – Cubismo – Futurismo - Valete de Ouros - O Cavaleiro Azul – Sincronismo – Orfismo – Raionismo – Suprematismo – Construtivismo - Pintura Metafísica – Vorticismo - Ativismo Húngaro - Escola de Amsterdã – Dadá – Purismo - De Stijl.

Jacek Yerka / Surrealismo

De 1918 a 1945
Em busca de uma nova ordem:

Arbeitsrat für Kunst - Grupo de Novembro – Bauhaus – Precisionismo - Art Decó Escola de Paris - Estilo Internacional - Novecento Italiano - Der Ring - Nova Objetividade Surrealismo – Elementarismo - Grupo 7 - M.I.A.R - Arte Concreta - Realismo Mágico - Cena Americana - Realismo Social - Realismo Socialista – Neorromantismo.

Lucian Freud / Realismo

De 1945 a 1965:
Uma nova desordem:

Arte Bruta - Arte Existencial - Arte Marginal - Abstração Orgânica - Arte Informal – Expressionismo – Letrismo – CoBrA - Arte Beat - Arte Cinética - Kitchen Sink School – Neodadá - Combines - Novo Brutalismo - Art Funk - Novo Realismo - Internacional Situacionista – Assemblage - Art Pop - Arte Performática Grav – Flux - Art Op - Abstração pós-pictórica.

Juarez Machado / arte contemporânea

De 1965 até hoje
Além das vanguardas:

Minimalismo - Arte Conceitual - Body Art - Instalação – Hiper-realismo – Antidesign - Supports-surfaces – Videoarte - Earth Art - Site Works - Arte povera – Pós-modernismo – High-tech – Neoexpressionismo – Neopop – Transvanguarda - Sound art - Web art - Destination art - Design art - Fotografia artística.



Marc Chagall / Modernismo



Fonte Guia Enciclopédico da arte moderna.
Estilos, Escolas e Movimentos – 2ªed. Amy Dempsey
Trad. Carlos E. Marcondes de Moura.






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6.3.11

PAUL CÉZANNE

Os jogadores de carta

Tais Luso de Carvalho

Cézanne, filho ilegítimo de um rico banqueiro, nasceu na França em 1839. Quis ser artista desde a infância, porém seu pai desaprovava. O medo da insegurança - por ser adotado - e o medo de seu autoritário pai, o perseguiram por toda a vida. Mas aos 22 anos conseguiu ir para Paris estudar arte e conviver com artistas.

Era um jovem com grandes momentos de depressão e seus sentimentos de baixa-estima o levaram a destruir muitas de suas obras. Era desesperado por ser aceito na elite artística de Paris. Assim voltou mais tarde para sua cidade Aix-en-Provence. Mas em 1862 retornou à Paris para viver como artista.

Ao lado de seu grande amigo Émile Zola tornou-se ativamente político e revolucionário. Dizia que o artista é um mero gravador de percepções sensoriais e que poderia revolucionar a pintura apenas com uma maçã... De fato, suas naturezas mortas são grandiosas pela espontaneidade dos tons. Com o tempo sua pintura tornou-se simplificada ao ponto de ser reduzida a limites quase geométricos, quase cubistas, conseguindo efeitos de perspetiva apenas pelo uso da cor.

O próprio Cézane definia seu estilo como arquitetônico; ele dava ao corpo uma abstração natural, não queria nada além de superfícies e volumes pictóricos, segundo o russo Malevitch sobre seu quadro Os Banhistas, enchia a tela com volumes e cor, superando o traço.

Cézane levou tempo para ser aceito e reconhecido no mundo das artes, e quase nada vendeu em vida. Quando suas obras foram rejeitadas pelo Salão de Paris, Cézanne foi consumido por uma intensa depressão, mas desta vez perseverando. 

Em 1863, numa exibição alternativa – Salón des Refusés, Cézane expôs ao lado de outros artistas, também rejeitados, como Édouard Monet, Camille Pissarro e Henri Fantin-Latour. Vinte anos mais tarde, a primeira de suas obras foi aceita pelo Salão de Paris.

Suas primeiras obras eram tristes, sombrias e melancólicas, porém seu estilo mudou na década de 1870, quando se apaixonou por Hortense Fiquet – 19 anos, e com ela teve um filho. Também ligou-se aos impressionistas. Mas sempre pensava em algo mais sólido e durável.

Em 1874, embora não se considerasse um impressionista, apresentou suas obras com o grupo. Foi influenciado pela arte flamenca, pintando naturezas mortas com as cores usadas pelos artistas flamencos.

Em 1886 ficou muito magoado com seu amigo Émile Zolá (amigos desde o collêge Borbon – 1852) pela semelhança do personagem do seu romance L'Oeuvre, contando a história de um artista fracassado... Nesse mesmo ano casa-se com Hortense da qual nasce seu filho.

Ao saber de sua família, seu pai reduz muito a ajuda financeira; porém é ajudado pelo amigo e escritor Émile Zolá o qual mais tarde vendo o luxo em que Zolá vivia, Cézanne fica desconcertado e afasta-se do amigo. Seu pai morre pouco depois deixando-lhe uma fortuna considerável. Mais tarde volta a morar em Aix enquanto sua família fica em Paris.

Sucedem, após, várias exposições o qual vende seus quadros alcançando preços muito bons. Em 15 de outubro, diabético, adquire pneumonia vindo a falecer.

Segundo Pablo Picasso: Meu primeiro e único mestre, Cézane foi um pai para todos nós.

Foi ousado no uso da cor, perspectiva inovadora, preocupava-se com formas geométricas e fazia um perfeito intercâmbio entre luz e sombra.

Auto retrato / 1890

Natureza morta

Os Banhistas
Natureza morta
O grande pinheiro / 1885


13.2.11

ESCRITOR ERNESTO SABATO E SUAS PINTURAS


Alquimista
- Tais Luso de Carvalho

Mostro aqui, no Das Artes, Ernesto Sabato, conhecido escritor argentino. Mas não falarei do escritor e sim postarei algumas de suas pinturas. Apenas umas pinceladas biográficas, mas trago Sabato como artista plástico. 

Nasceu em 1911, em Rojas, Argentina. Tornou-se doutor em física em 1937. Foi pesquisador de laboratório de Curie, em Paris, mas uma visão premonitória e apocalíptica da bomba atômica levou-o a abandonar a ciência e dedicar-se à literatura. Em 1983 foi eleito presidente da Comissão Nacional de Desaparecidos Políticos, cujo trabalho originou o relatório Nunca más, conhecido como o Informe Sabato

'O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles. A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais'. 

'Durante esse tempo de antagonismos, pela manhã me sepultava entre eletrômetros e provetas e anoitecia nos bares, com os delirantes surrealistas'. (Paris) 

Bem, mas segundo seu depoimento, sua primeira grande paixão, desde criança, foi a pintura, quando ainda não lia e nem escrevia. 

Passou para a tela seus pesadelos, suas alucinações e contradições de sua tumultuada existência, quando se envolveu, também, com a política. 

Segundo uma entrevista, dada por seu filho Mário Sabato, 'seu pai é a essência de um homem austero, que tem como seus maiores valores a justiça, a amizade, a liberdade e compaixão. Era obcecado pela ordem e econômico nos afetos. Proporcionava as tempestades e sua mãe os amanheceres'. 

Às vésperas de completar cem anos, Ernesto Sabato mantém uma rotina simples, em encontros com os parentes próximos - especialmente os três bisnetos, ao lado de livros de pintura e sob os cuidados de uma enfermeira. 

As pinceladas fortes, de marcada inspiração expressionista, revelam outra obsessão do autor: o interesse pelo retrato e, a partir dele, o fascínio pela representação dos olhos, não raro transfigurados em expressões de angústia e pavor. 

'Sim, são bastante horríveis - diz Sabato - não os colocaria na sala de jantar, obviamente'. 

'O homem não é um objeto passivo e, portanto, não pode se limitar a refletir o mundo; é um ser dialético (como seus sonhos o provam), longe de refleti-lo, resiste a ele e o contradiz. E esse atributo geral do homem se dá com mais histérica intensidade no artista, indivíduo geralmente anárquico e anti-social, sonhador e inadaptado'. 

É fatal que, de algum modo a arte esteja relacionada com a sociedade, já que a arte é feita pelo homem – mesmo que seja um ingênuo – não está isolado: vive, pensa e sente de acordo com sua circunstância.


FALANDO DOS MOVIMENTOS...


Além das influências provenientes dos grupos verticais, além dos fatores de temperamento que são próprios de cada indivíduo e que podem ocorrer em qualquer classe social, há ainda na arte uma força intrínseca que tem pouco a ver com a sociedade: atuam nela o cansaço e o capricho. 

Como as modas, no vestir, muitas de suas renovações ocorrem por esgotamento psíquico, por fastio, pelo simples prazer de ir contra a geração anterior ou contra inimigos poderosos na própria arte, por frivolidade, por rancor, por astúcia, pelo simples gosto da mudança. 

No livro O escritor e seus fantasmas - ed. Companhia Das Letras, o escritor fala do que pensa sobre os vários movimentos da arte. Logicamente seria muito extenso transcrever aqui os inúmeros pontos de vista e idéias de um autor da envergadura de Sabato, porém fica a dica para os interessados. Gostei de ter lido, afinal, há de se respeitar Ernesto Sabato. 

'A criação artística assemelha-se, em certos aspectos à contemplação mística, que pode ir também da oração confusa à visões precisas'. (H.Delacroix)


Dostoievski

Por qué gritará?
Nietzsche
auto-retrato
Virginia


7.2.11

INVENÇÃO DO OURO NAS ARTES / SUMÉRIOS



Vasilha de ouro com lápis-lazúli

- Tais Luso de Carvalho
O ouro, conhecido desde a antiguidade, não tinha nenhuma utilidade prática, mas foi usado ao longo da história como símbolo de prestígio. Sua história de sucesso começa no terceiro milênio a.C, quando os sumérios - primeiro povo a habitar a região da Mesopotâmia -, aperfeiçoaram o tratamento do metal com fins de ostentação de riqueza. Poderia se dizer que a história da ourivesaria e suas técnicas na manipulação do ouro se espalharam através dos sumérios para todas as civilizações antigas. 

Em algumas escavações, feitas por arqueólogos, o metal foi encontrado entre dois ladrilhos de terracota, perdido e prensado no chão de uma construção em Larsa, na Mesopotâmia. A princípio foi reconhecido pela sua durabilidade, inalterabilidade, beleza e divisibilidade.

Era um metal facilmente riscável, oferecia poucas vantagens, exceto sua raridade e seu aspecto reluzente. O economista K.Polanyi chamava-o de luxuries, por oposição às necessidades das sociedades não igualitárias, sendo de uso dos ricos e poderosos.

As primeiras peças de joalheria apareceram já na era neolítica. Jóias muito bem elaboradas apareceram nas ruínas de Ur, de Troia e de Micenas. Mas a principal característica do ouro é que ele não servia pra nada. Era inoxidável, não se alterava, mas na prática era menos útil do que o bronze ou o cobre.

Os sumérios fizeram uso notável do ouro; ainda hoje investiga-se a técnica que utilizavam para produzir filigranas e grãos. O ouro fascina porque simboliza o prestígio, o status, a distância, a alteridade. E só tem valor se a sociedade inteira o reconhece como tal.

O ouro só apareceu de maneira significativa nos inventários arqueológicos. Os túmulos de Ur é o indício indiscutível do nascimento e do fascínio por este metal e, assim, a aplicação e seu uso chegou até nós. Porém, logo após o enterro funeral, apareciam os saqueadores de túmulos para roubarem o ouro.

Esse lindo metal passou a circular pelo mundo afora, onde a maior reserva nos nossos dias - além de fazerem parte em obras de arte - encontra-se nos braços, pescoços e tornozelos das mulheres do mundo inteiro.
Hoje é jóia por excelência, o metal que realça a beleza.




Lira / Na tumba do Rei de UR

Adorno de ouro - cabeça / tumba da rainha Puabi
Elmo sumério na tumba de Meskalamdug

fonte / História Viva

30.12.10

MONET




- Tais Luso de Carvalho  

Existem duas razões para considerar Monet como o mais 'impressionista dos impressionistas': o seu eterno gosto pelos espaços abertos, parques, jardins, o campo inundado de sol e a precisão com que conduziu os seus estudos de pintura, numa intenção de reproduzir as vibrações de luz e da cor variável das coisas.

As telas dedicadas à Catedral de Rouen são o testemunho mais significativo desta perseverança. A sua coerência deu-lhe um papel relevante no seio do grupo dos impressionistas. Entre 1892 e 1894 pintou cinquenta quadros diferentes da Catedral de Rouen, vista sob todas as condições possíveis: com sol, ou chuva, ao nascer e ao pôr do sol, no verão e no inverno.

Monet não estava preocupado em mostrar a estrutura da Catedral, mas em observar como a estrutura parecia modificar perante os seus olhos à medida que a luz também mudava.

O ciclo de Ruão constitui uma das obras-primas da pintura impressionista e um dos maiores exemplos do tratamento de um único tema numa série.

Monet pôs em prática o conceito de sua missão como pintor: como não existe uma só realidade, o pintor não deve fixar essa realidade, mas ser capaz de captá-la na sua mudança constante.

Disse uma vez ' esqueçam o que têm perante os olhos, uma árvore, uma casa, um campo e pensem simplesmente: aqui está um pequeno quadrado azul, e ali um retângulo cor-de-rosa, acolá uma franja amarela, e pintem o que vos parece'.

Dois montes de feno, muito comuns na paisagem campestre, foram colocados no meio de uma tela - como pretexto -, o que contava era reproduzir os efeitos da luz. Monet usava uma série de pinceladas densas, muito coloridas; azul, branco, vários tons de vermelho e violeta.

As cenas marítimas marcaram sua vida, assim que ao chegar em Paris preferiu pintar o Sena do que as estátuas do Louvre. Imprimiu na dureza das telas, a vida. Foi com o impressionismo, com Monet, principalmente, que a pintura deixou a escuridão abafada dos estúdios para respirar ao ar livre. O próprio nome 'impressionismo' nasceu de um quadro de Monet: 'Impressões do Sol Nascente'.

Nascido em Paris em 1840, Claude Monet viveu no Havre de 1845 a 1858. Em 1859 regressou à capital onde frequentou a Academia Suiça. Pintava ao ar livre com Bazille, Renoir e Sisley. Conheceu Manet e participou da vida cultural de Paris. Em 1890 comprou a sua casa de Giverny e ali viveu até a sua morte – 1926 – continuando a pintar apesar de seus graves problemas de visão.

Luzes, movimentos, festas sem fim, alegria, felicidade, cores infinitas, poesia, sonhos: eis a pintura de Monet! 


A Ponte Japonesa em Giverny - 1899

The Studio Boat / 1874       

Regatta at Argenteuil       

Parlamento de Londres sob a bruma /1904

Jardins de Giverny - 1915

Les Nympheas - 1920/26



18.11.10

EDGAR DEGAS

  
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 Tais Luso de Carvalho

Nascido de uma família rica, Edgar Degas nasceu em Paris, em 19 de julho de 1834. Considerado um dos maiores artistas do mundo, sua obra é vista como a ligação entre a arte clássica e a moderna. Dominou a escultura, o desenho, a pintura e a fotografia – adotando esta última a partir de 1895.

No ano de 1855 conheceu Ingres, por quem tinha grande admiração, como também por Gauguin, mais tarde. Quando Degas retornou à Paris, de suas viagens por Roma, Florença e Nápoles conheceu Manet, de quem viria a sofrer uma irreversível influência que modificaria sua pintura. Uma dessas influências diz respeito à técnica de Manet ao explorar a luz em sua obra. Tornou-se um membro regular das tertúlias do Café Guerbois e expôs no Salon. Foi um dos artistas mais inspirados pela técnica da fotografia.

Durante a Guerra franco-prussiana alistou-se na Guarda Nacional e, no seu regresso renovou os seus contatos com os impressionistas participando da maioria das exposições efetuada pelo grupo.

Na segunda metade do século XIX o teatro era a principal fonte de entretenimento dos parisienses, porém os ensaios, o que acontecia nos bastidores não eram tão alegres como se via no palco. Degas desenhava o que via, memorizava os velhos mestres e espectadores entediados e acabava a pintura no estúdio, nascendo ‘O Ensaio de Ballet no Palco’.

‘O que faço é o resultado da reflexão e do estudo... Nada sei acerca de inspiração, espontaneidade ou sentimento’.

Por oposição a todos os impressionistas, trabalhava apenas no estúdio, na maioria das vezes através da memória. Não se mostrava muito interessado pela natureza, mas deu muita importância ao desenho. O que o aproximava de outros artistas era o seu interesse pela vida contemporânea e o fato de possuir o grande talento para a experimentação.

Seus quadros sofreram a influência da fotografia, o tom acidental do inesperado, a ousadia do enquadramento. Explorou todos os aspectos ao seu alcance, a velocidade de cavalos, bailarinas e bares. Era o pintor das obras em movimento. Inventou novas técnicas de pintura. Eram momentos captados, tal como num fotograma de um filme.

Degas se definia mais como um "realista"; na oitava exposição dos impressionistas, realizada em 1886, ele pretendeu que a mesma fosse apresentada como uma "exposição de um grupo de artistas independentes, realistas e impressionistas".

Nos últimos anos de sua vida, solitário e quase cego dedicou-se à escultura. Veio a falecer em setembro de 1917, amargurado e esquecido pelos que já não o viam como um grande pintor, pois terminara cego. Viveu 83 anos sem ser reconhecido em vida, porém deixou uma obra fantástica.


Família Bellelli, 1860 - clic para aumentar

Cavalos de Corrida / clique para aumentar
O Absinto / clique aumentar
 Duas formas da degradação humana: um boêmio e uma prostituta  destruídos pelo álcool.